terça-feira, 25 de julho de 2017

Homens como árvores? - A importância da antropologia no aconselhamento

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Se você está familiarizado com as Escrituras certamente sabe que o título é uma alusão à resposta do cego que foi curado por Jesus em duas etapas, após este lhe perguntar: “Vês alguma coisa?”. A resposta completa foi: “Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando” (Mc 8.24,24).

Talvez você saiba que esta passagem não trata de antropologia, o que é também do meu conhecimento, portanto, não desista ainda da leitura achando que é perda de tempo ler um texto que já começa citando uma passagem “fora do contexto”, mas tenha paciência e continue comigo.

O capítulo 8 do evangelho de Marcos começa com o relato da multiplicação de pães e peixes. Jesus, compadecido de uma multidão que permanecia com ele já há três dias, realizou um milagre multiplicando sete pães e alguns peixinhos e, após a multidão comer de se fartar, ainda sobraram sete cestos de pedaços de pães (Mc 8.1-10).

Depois desse milagre maravilhoso, os fariseus tentam ao Senhor Jesus e pedem um sinal dos céus. Este responde que nenhum sinal lhes seria dado e a passagem paralela, no evangelho de Mateus, informa que, “senão o de Jonas” (Mc 8.11,12; cf Mt 16.4). Jesus estava se referindo à sua morte e ressurreição, que ocorreria mais à frente, perto do fim do seu ministério terreno.

Esse contexto é importante, pois ao passar para o outro lado do mar da Galileia, Jesus advertiu os discípulos que tivessem cuidado com o fermento dos fariseus e saduceus. Diante dessa palavra de Jesus os discípulos começaram a discutir entre si, dizendo: “É que não temos pão” (Mc 8.16). Jesus interrompe e pergunta àqueles que estavam com ele e testemunharam o milagre a razão de estar discutindo sobre o não ter pão. Eles não compreendiam? Ele ainda não tinha entendido quem estava com eles? O Senhor, então, pergunta sobre as duas ocasiões em que ele havia feito o mesmo tipo de milagre. Quantos cestos de pedaços eles haviam recolhido quando Jesus partiu 5 pães para cinco mil? “Responderam eles: Doze!” (Mc 8.19). Quantos cestos eles haviam recolhido quando ele partiu 7 pães para quatro mil? “Responderam: Sete!” (Mc 8.20).

Diante da resposta Jesus perguntou: “Não compreendeis ainda?” (Mc 8.32). Ele já os havia repreendido, também, nos versículos anteriores: “Por que discorreis sobre o não terdes pão? Ainda não considerastes, nem compreendestes? Tendes o coração endurecido? Tendo olhos, não vedes? E, tendo ouvidos, não ouvis?” (Mc 8.17-18). Aqueles homens, apesar de terem visto os milagres, ainda não tinham uma visão correta acerva de quem era Jesus.

É nesse contexto que acontece a cura em duas etapas (Mc 8.22-26). Chegando em Betsaida, um cego é levado até Jesus. Ele o leva para fora da aldeia, aplica saliva em seus olhos, impõe as mãos sobre ele e pergunta se ele estava enxergando. Ele via vultos. Ele via o que parecia ser árvores, mas como estavam andando, ele deduziu que se tratavam de homens. É nesse ponto que Jesus novamente coloca as mãos nos olhos daquele homem “e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito”.

A história que se segue (Mc 8.27-30) nos mostra a razão de Jesus ter curado aquele homem em duas etapas. Certamente não faltou poder a Jesus, mas uma lição precisava ser aprendida.

Indo para Cesaréia, Jesus perguntou aos discípulos o que os homens diziam a respeito dele. “João Batista; outros Elias; mas outros: Algum dos profetas”, responderam eles. Diante da resposta, Jesus pergunta diretamente aos discípulos: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?” – e Pedro, tomando à frente, responde – “Tu és o Cristo”.

A lição é clara. Os homens podiam ter até uma certa noção a respeito de quem era Jesus. Ele, de fato, era um profeta. Mas essa visão acerca do Mestre era tão turva quando à do cego, antes de ser curado completamente. Já Pedro respondeu corretamente. Estava ali o Messias, aquele que havia sido profetizado no Antigo Testamento. Como é que um homem que a pouco foi acusado, junto com os demais discípulos, de não compreender e ter o coração endurecido agora “tudo distinguia de modo perfeito?”. A resposta está na passagem paralela, no evangelho de Mateus. Após a resposta de Pedro Jesus afirmou: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17). Somente Deus pode tirar os homens de sua cegueira e fazê-los entender corretamente quem é o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.

O entendimento correto a respeito de Jesus é essencial à salvação. Ele mesmo afirmou em sua oração sacerdotal: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

Homens ou árvores?

Entretanto, não é preciso conhecer somente a respeito de Cristo corretamente. É preciso que o homem tenha também uma noção correta acerca de si mesmo, como um pecador que carece da graça e da misericórdia de Deus. Como afirmei desde o princípio, o propósito da passagem da cura do cego não é ensinar antropologia, mas mostrar que só é possível “ver” a Cristo corretamente por uma obra do próprio Deus, no caso, o Espírito Santo. Entretanto, da mesma forma que só foi possível ao cego enxergar os homens, fisicamente, por causa de Cristo, só é possível chegar a uma visão antropológica correta a partir da Palavra de Cristo, que nos revela o Pai.

Calvino ensina que “é notório que o homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão dele desça a examinar-se a si próprio”[1]. Enquanto não se vê pecador e carente de Deus o homem não buscará a Cristo, mas para que ele chegue à essa conclusão, é preciso que ele entenda primeiro o quão santo é o Senhor.

Aqueles que creem em Cristo são feitos filhos de Deus e agora fazem parte da família da fé. Agora começa uma nova caminhada, uma caminhada de santificação que tem por fim tornar cada cristão semelhante a Jesus Cristo, pois esta é a razão da nossa eleição, conforme Paulo (Rm 8.29; 1Jo 3.2; Cl 3.10). Conforme a Bíblia, o instrumento que Deus usará para forjar em seus filhos o caráter do seu Filho Unigênito, nosso irmão mais velho, é a Palavra. Ela é viva e eficaz, poderosa para discernir os pensamentos do coração (Hb 4.12). Ela é perfeita e restaura a alma (Sl 19.7). Ela é inspirada por Deus e útil para tornar o homem perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra (2Tm 3.16,17). Ela nos revela a Cristo, em quem temos todas as coisas suficientes para a vida e para a piedade (2Pe 1.3).

A despeito disso, muitos cristãos têm deixado de lado a Palavra e se voltado para as ciências sociais a fim de resolver os seus problemas, conflitos, traumas, etc. Talvez você questione: Qual seria o problema disso já que os teóricos tanto estudaram o homem e podem ter boas percepções a respeito dele? Dentre tantas questões, vou me deter à questão da antropologia.

Primeiro é preciso deixar claro que eu entendo que muitos desses homens, que se dedicaram e se dedicam a compreender o homem e seus problemas, têm boas intenções. Eles sabem que há algo errado, buscam descobrir as causas e tentam propor soluções. Agora deixe-me pegar emprestada a figura do cego curado em duas etapas para ilustrar o meu ponto: A despeito da boa vontade, os teóricos das ciências sociais enxergam o homem de forma errada.

O cego via homens como árvores, os teóricos das ciências sociais os enxergam como produto da evolução, como essencialmente bom, como carente de necessidades, etc. Por mais que a observação lhes dê certa noção de que algo está errado, eles nunca compreenderão a razão fundamental dos dilemas humanos. Eles desconsideram completamente a verdade de que o homem foi criado perfeito, à imagem e semelhança de Deus e para viver para a sua glória. Entender que o homem foi criado com um propósito específico e não que ele é simples fruto do acaso, num processo de evolução aleatório, vai fazer uma diferença grandiosa no aconselhamento. O aconselhamento é primariamente para a glória de Deus, levando o homem a estar contente em toda e qualquer situação, à medida em que se submete à Palavra de Deus. Ele não tem por fim principal “solucionar” os problemas do homem.

Por desconsiderarem a Deus e a criação com um propósito específico, os teóricos humanistas também não entendem que houve uma queda, quando Adão caiu em transgressão levando a ele e toda a sua posteridade a estar afastada de Deus (Rm 3.23). Eles não enxergam o homem como um pecador. O resultado disso é que

“um estudo superficial da história da psicologia e de suas patologias propostas revela uma tentativa constante de amenizar a culpa, responsabilizando o meio ambiente, a hereditariedade ou os instintos primitivos evolucionários pelas respostas verbais ou comportamentais”[2],

ou seja, o problema sempre está “lá fora”.

À vista disso, concordo integralmente com o que escreveu Jay Adams:

“Tudo que se pode dizer de Freud é que suas ideias encorajaram pessoas irresponsáveis a persistirem em sua irresponsabilidade e a aumentá-la. Ele deu sua aprovação à conduta irresponsável e a fez respeitável. [...] Freud não fez com que as pessoas se tornassem irresponsáveis; mas forneceu uma fundamentação racional, filosófica e pseudo-científica para as pessoas usarem a fim de justificar-se”[3].

Sem uma antropologia correta, que leve em conta a criação, a queda e a redenção, é impossível tratar efetivamente os problemas da alma. Mais uma vez, recorro à John Babler, que diz:

“O verdadeiro cuidado das almas se importa com o problema fundamental da alma humana, e por isso, a doença do pecado deve ser abordada antes de qualquer outro problema. Munir um aconselhado com mecanismos de adaptação que se limitam a prover alívio temporário pode deixar a sua alma em uma condição devastadora. [...]

O evangelho de Cristo deve ser a prioridade máxima na vida do aconselhado, porque qualquer tentativa de solução que desconsidere o evangelho redentor desculpará o problema, ensinará a justiça própria e apaziguará a culpa, o que endurecerá ainda mais o coração, obscurecendo a compreensão”[4].

Desconsiderar a Deus e o pecado humano, vão levar inevitavelmente a propostas equivocadas de como “consertar” o que está errado. É claro que muito pode ser dito a respeito da antropologia bíblica, mas meu ponto aqui é apontar para a importância de um entendimento correto a respeito do homem a fim de tentar ajuda-lo em seus dilemas. Esse conhecimento só se dá pela Palavra de Deus.

“Adquirir uma perspectiva bíblica equipa o conselheiro para a tarefa de corrigir o que foi arruinado pela busca pecaminosa de uma sabedoria inadequada. O conselheiro deve trabalhar diligentemente na exegese e na compreensão das Escrituras. À medida que as Escrituras revelam o caráter de Cristo, homens e mulheres podem conhecer a Deus. Uma pessoa nunca mais será a mesma depois de ter conhecido a Deus”[5].

Tratar da alma humana sem essa séria consideração é como tentar chegar ao Rio Grande do Sul enquanto dirige pela Br-101 no sentido de Recife. Nem com toda a boa vontade do mundo você acertará. Portanto, não paute o seu aconselhamento pela visão daqueles que enxergam homens como árvores, mas, com a iluminação do Espírito Cristo, aconselhe com as lentes corretivas da suficiente Palavra de Deus.

Milton Jr.


[1] João Calvino. Institutas, Livro I – p. 42 (Ed. Clássica)

[2] John Babler (editor). Os fundamentos do aconselhamento bíblico – p. 102

[3] Jay Adams. Conselheiro capaz – p. 34

[4] John Babler (editor). Os fundamentos do aconselhamento bíblico – p. 92

[5] John Babler (editor). Os fundamentos do aconselhamento bíblico – p. 98

terça-feira, 18 de julho de 2017

Como a mudança de perspectiva muda tudo

Escrevo aqui o que já usei algumas vezes pra ajudar meus irmãos e irmãs a mudarem de perspectiva e ver a situação que enfrentavam de uma “nova” perspectiva, durante sessões de aconselhamento. Acredite, a mudança de perspectiva muda tudo!

Faz algum tempo, porém, que escrevi que como a nossa busca por simplificar a vida acaba nos conduzindo à uma visão limitada que pode ser prejudicial (http://aconselhandocombiblia.blogspot.co.za/2016/04/a-vida-debaixo-vista-de-cima.html). Meu argumento era que a vida aqui em baixo, quando vista de cima, ganhava uma espectro mais rico, amplo, capaz de abranger a complexidade da vida tal como ela se mostra cá embaixo.

Hoje gostaria de convidar-lo a refletir, mais uma vez, sobre a importância de ver a vida por esse ângulo. O convide parece ser aleatório, mas não é. Como cristãos, nos cabe olhar todas as coisas - tanto as que causam imenso prazer, quanto as que nos deixam indignados - pelas lentes da nossa fé. E é aí que a coisa aperta: nem sempre o fazemos. Então, me permita repetir: a mudança de perspectiva muda tudo! Veja à seguir.

O texto que me vem à mente é amplamente conhecido, e muitas vezes mal-interpretado. Ele está registrado no evangelho que escreveu o apóstolo João, no capítulo 3, verso 16 (quase que não preciso transcrevê-lo, não é?):

"Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna"

Quando disse que esse texto já foi mal-interpretado, é porque já ouvi e li quem enfatizasse o amor de Deus, que nesse texto parece ter sido retratado como “de tal maneira”. Já ouvi a história de quem teve que explicar que Deus de fato amou o mundo, pois a pessoa havia entendido que Deus havia amado o mundo “de jeito maneira”, ou seja, “de modo nenhum”. A explicação a que me referi (que enfatiza o amor de Deus como que caracterizado nessa passagem) argumentava que a condição do homem era de tal sorte terrível, que só um amor que tivesse o mesmo alcance da profundidade do pecado a que o homem foi parar, poderia alcançar-lo. E esse foi o amor divino como demonstrado em Cristo. Acho que por causa do que esse amor cobrou - o sacrifício de sangue que Cristo ofertou na cruz - esse tipo de explicação parece fazer sentido.

Mas esse texto tem tudo a ver com perspectiva, e se você por acaso via o texto pela perspectiva que retratei acima, eis o convite para vê-lo (ao texto), por outro ângulo: um que, acredito, faça mais justiça ao que João pretendia ao registrar os eventos do capítulo 3.

O capítulo 3 de João nos conta a história de Nicodemus, um fariseu que foi procurar a Jesus durante a noite, intrigado por tudo quanto havia ouvido e visto Jesus dizer e fazer. Ele queria confirmar que Jesus falava da parte de Deus. Para Nicodemus, essa era a única explicação capaz de satisfazer seu espírito inquieto (v.2). Jesus deixa claro para Nicodemus de início que tudo dependia o ângulo pelo qual ele o via. Jesus, entretanto, adiante: o ângulo certo é “de cima”.

É realmente uma pena que nossa tradução em português tenha resolvido traduzir o termo por “de novo”. Desta forma, o leitor desavisadamente é conduzido a pensar que Jesus falava meramente de um segundo nascimento, e não de sua fonte. Mas é compreensível, afinal, Nicodemus também entendeu se tratar de um “segundo nascimento” (v.4), o que foi, devo dizer, um entendimento errado corrigido pelo próprio Senhor Jesus (v.5). Confuso, o fariseu mestre da lei perguntou como isso seria possível. A dificuldade de Nicodemos era ver "a coisa toda do alto". Por isso a pergunta dele parece boba: voltar pra dentro da mãe? Como? Veja que Jesus toma a palavra (v.5) pra explicar que o nascimento a que ele se refere vem da água e do Espírito, mas parece que Nicodemus ficou ainda mais perdido (v.9). É quando, então, que somos informados que a resposta fica “ainda mais em cima” (v.12).

A resposta completa, portanto, está compreendida entre os versos 13-21. Quando lidos juntos, esses versos realmente são bem coesos:

"Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem [que está no céu]. E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna. Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras. Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus."

Eis aí meu ponto: tudo o que acontece em nossa vida tem um propósito maior, quando visto "de cima”, como deve ser. Por propósito maior, não quero dizer eterno, ou futuro, como que implicando que no céu, quando Cristo voltar entenderemos. Não. Esse propósito tem efeitos imediato, porém é maior, abrangente... e nem sempre estamos conscientes disso. Creio firmemente que esse propósito maior dos acontecimentos de nossa vida, que a gente sabe que foram dados (não permitidos) por Deus, como prova e expressão de seu amor, é a conformidade com seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor!

Em outras palavras, estou dizendo que Deus está mais empenhado em nos tornar mais semelhantes a Cristo do que com qualquer dessas pequenas bênçãos passageiras que a gente tanto dá valor, inclusive à nossa efêmera vida - e o que nessa se contém. Sim, afinal, se nos custar essa vida, ainda é preferível sacrifical-la a perder a eternidade no céu!

Essa parece ter sido precisamente a lição que Jesus ensinou a Nicodemos em João 3. Como disse no início, a gente esquece que o famoso verso 16 (talvez um dos poucos que saibamos de cor) de João 3, está inserido naquela conversa entre Jesus e Nicodemos, no meio da noite. Jesus, com compassiva paciência, explica que quando a gente vê a vida do ângulo de Deus, a gente entende que até a cruz é prova de amor da parte de Deus. Essa manifestação de amor é estranha, por isso o Senhor Jesus repete duas vezes (e aqui está o “pulo do gato”) (veja os versos 14-16) que da mesma forma esquisita com que Deus salvou o povo das mordidas das víboras, no tempo de Moisés, não menos misteriosamente, o filho do Homem seria igualmente levantado numa estava de madeira, para a salvação de todo aquele que nele cresse. E sim, tal como foi no caso da serpente de bronze, a cruz seria uma demonstração do amor salvador de Deus.

Essa não seria uma lição fácil de assimilar. Para isso seria necessário que o Espírito Santo, vindo dos mesmos céus de onde o filho foi enviado, e de onde esses planos foram previamente traçados, agisse no coração de Nicodemos e assim seus olhos pudessem ver. Só quando seu entendimento fosse renovado pelo poder regenerador do Espírito é que ele veria a vida pelo ângulo certo: o de cima.

Tudo o que passamos nessa vida ganha sentido quando entendemos a realidade tal como Deus a entende e vemos a vida pela sua perspectiva. E graças ao Espírito Santo, podemos ter acesso à esse privilegiado ponto de vista.

Jônatas Abdias

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A Soberania de Deus e a Nossa Alegria


downloadSabemos que cristãos e ímpios sofrem neste mundo caído, neste estado de pecado em que nos encontramos.

...porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.” Mateus 5.45b

Mesmo que a falta teologia da prosperidade tenha criado um mundo inexistente, afirmando que os verdadeiros cristãos não sofrerão, a realidade é bem diferente. Essa falsa teologia envenenou uma geração inteira. Como uma espécie de cultura tácita, ela imprimiu uma perspectiva desastrosa. Cristãos que compraram a ideia de que não sofrerão dano algum neste mundo expressam uma teologia ruim. E para alimentar ainda mais esse erro, nossa geração foi destreinada a encarar o mundo real, as contrariedades, a dor, o sofrimento e morte. Pensando assim, não conseguem lidar com os momentos difíceis pela perspectiva bíblica. Ver irmãos em Cristo padecendo por crerem numa falsa teologia ou, por ignorarem a Palavra de Deus, tem sido de fato um fator encorajador para lembrarmos que a Palavra de Deus continua sendo a melhor fonte de ajuda. Digo a melhor fonte de ajuda, pois muitos irmãos estão bebendo água salobre, (outra fonte) procurando entre ímpios, conselhos para a alma cansada, abatida, desanimada, em luto, ou mesmo lutando contra algum pecado recorrente.

Penso ser salutar lembrarmos que há uma fonte de água pura, há um farol que brilha sem erro, há uma fonte de sabedoria celestial à nossa disposição que é a Palavra de Deus.

Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.  Hebreus. 12.4

Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos.

Salmo 119.105

É evidente que uma geração que cresceu ouvindo e sendo instruída a procurar o poder e não a Palavra de Deus sofrerá muito. Pensemos rapidamente o que faríamos sem as orientações da Palavra de Deus. Na antiga União Soviética, durante décadas houve a proibição do uso da Bíblia. Bíblias foram contrabandeadas para aquela nação, a fim de prover alimento aos irmãos em Cristo e sim, eles recebiam a Palavra do Senhor com intensa alegria.

Doutrinas bíblicas não engessam o coração. Doutrinas bíblicas não aprisionam o Santo Espírito de Deus, pois nada nem ninguém pode conter o Deus Todo Poderoso que nos deu sua Palavra para a devida segurança do seu povo, contra o pecado e contra as armadilhas de Satanás.

Pensando em doutrinas para o coração ser devidamente admoestado, corrigido, confortado e santificado, pensemos em como podemos nos alegrar na maravilhosa doutrina da soberania de Deus.

Lembrar que Deus é soberano não é um favor à alma, mas uma obrigação ao servo fiel e leal a Deus, afinal, ele é o soberano Deus. Não podemos defender a soberania de Deus e, ao mesmo tempo, viver como se ela não existisse. Lembrar que Deus é soberano implica em lembrar que Deus controla todas as coisas. Lembrar que Deus controla todas as coisas implica em lembrar que ele está no controle e que devemos descansar e confiar nele, pois todo bem procede de Deus. Lembrar que Deus é soberano, implica em submissão santa àquele que detém todo o poder para fazer valer sua vontade.

Devemos estar atentos às intempéries da vida. Devemos estar atentos quando as abruptas tempestades e tribulações nos alcançarem repentinamente. Devemos estar atentos para não permitir que o nosso coração produza a dúvida, a incerteza, a desconfiança sobre os eternos desígnios de Deus. Muita da nossa fadiga e aflição vem precisamente do triste fato de não confiarmos plenamente em Deus e nele descasar.

Em tempos de alegria, prosperidade e a chegada de bênçãos, somos apressados em declarar como Deus é soberano! Em tempos de aflição e descontentamento, como somos tardios para declarar esta mesma verdade.

Quando o coração reluta em descansar no fato de Deus ser soberano, rapidamente nossas obras tornam-se frutos amargos, nossa alegria se esvai e olhamos com desconfiança para o futuro.

Parafraseando o reformador Lutero, “não sei por quais caminhos Deus me guia, mas confio no meu guia”. É assim que devemos proceder, confiando em nosso Pai celestial, pois ele é soberano. Sua majestade não tem fim, e nenhum dos seus planos pode ser frustrado!

Deus é soberano e soberanamente aplica sua bondade e seu perdão. De outra forma, não haveria esperança, não haveria redenção, não haveria comunhão. Nosso senhor Jesus Cristo veio para nos salvar, e nos ensinar a honrar o Deus eterno. O mundo, a impiedade, a maldade crescente, a tragédia dos péssimos testemunhos, não podem e não devem impedir que o cristão se alegre e se regozije na bendita realidade da soberania de Deus.

Ainda que esta doutrina ora seja esquecida, ora seja rejeitada no todo ou em parte, não pode ser diminuída, maculada ou anulada. Esta doutrina é a pérola preciosa para a segurança do cristão, conforme revelada nas Escrituras Sagradas. O pecado e a maldade não anulam quem Deus é. Absolutamente nada nem ninguém pode fazer isso.

Ele é o Deus soberano! Seu braço é forte e não pode ser detido. Sua vontade é sempre satisfeita. Seus planos são sempre cumpridos conforme sua vontade e o seu tempo.

Uma das minhas maiores alegrias como ministro da Palavra de Deus é ver, com regozijo e contentamento em meu coração, a vontade do soberano Deus alcançar seus eleitos. Por isso, podemos ler com confiança: "... o meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade (Isaías 46:10).

Reverendo Jean Carlos Serra Freitas

terça-feira, 4 de julho de 2017

Forrest Gump, Eclesiastes e Westminster

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Um dos filmes que marcou bastante os primeiros anos de minha mocidade foi Forrest Gump. Na história, Gump é um homem simples que vive no Alabama e que começa o filme sentado em um banco de um ponto de ônibus onde conta várias histórias de sua vida para as pessoas que vão se assentando ao lado dele. Em suas histórias ele viaja pelo mundo e é testemunha ocular de vários acontecimentos importantes na história, influenciando alguns deles. Vale a pena assistir o filme!

Eu o cito aqui porque uma das cenas que mais gosto é quando Forrest está assentado em uma varanda e resolve, como diz ele, “sem nenhuma razão especial, fazer uma pequena corrida”. Ele corre até o fim da estrada, depois até o fim da cidade e depois pelo condado. Ele, então, pensa: “já que cheguei até aqui, vou correr pelo estado”. E sucessivamente ele vai correndo para lugares cada vez mais longínquos “sem nenhuma razão especial”. Ele correu por 3 anos, 2 meses, 14 dias e 16 horas até que parou. Nesse tempo pessoas se ajuntaram a ele, o viam como uma inspiração. Alguns queriam saber se corria por alguma causa especial, etc. Quando parou, seus seguidores esperaram para ver o pronunciamento daquele que correra por tanto tempo. Ele olhou para aquelas pessoas e disse: “Eu tô muito cansado. Acho que vou para casa agora”. Voltou caminhando, deixando para trás os que o seguiam.

Em minha opinião, esta cena ilustra de forma formidável aquilo que Salomão escreveu muito, muito tempo antes: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Ec 1.2). A palavra vaidade aqui significa aquilo que é vão, vazio. Salomão afirma ainda: “atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade (vão) e correr atrás do vento” (Ec 1.14).

Para algum desavisado, Salomão soaria como um pessimista, que olha a vida como não tendo nenhum sentido, nenhuma razão, tal como a corrida de Gump. Esses, então, poderiam dizer que o que faltou para o corredor do Alabama e para os homens que Salomão descreve no Eclesiastes foi um propósito.

Entretanto, não é suficiente se ter um propósito. Uma boa ilustração disso está no capítulo 2. Alguns entendem, por exemplo, que um bom propósito para a vida está no trabalho, mas o pregador diz: “também aborreci todo o meu trabalho, com que me afadiguei debaixo do sol” (Ec 2.18). Mas porque Salomão chega a esta conclusão de que o trabalho é vão? A resposta está na continuação do versículo: “visto que o seu ganho eu havia de deixar a quem viesse depois de mim. E quem pode dizer se será sábio ou estulto? Contudo, ele terá domínio sobre todo o ganho das minhas fadigas e sabedoria debaixo do sol; também isto é vaidade” (Ec 2.18b-19).

Note bem! Para aquele que fez do trabalho somente um meio de construir um patrimônio, ficará angustiado ao pensar o que seus herdeiros farão com tudo aquilo? Será que farão valer à pena? Será que colocarão tudo a perder? Para que trabalhar tanto se não há garantias de que sua obra perdurará? Isso seria semelhante à corrida de Gump que, após correr tanto, só teve como resultado o voltar cansado para casa.

É preciso, por tudo isso, saber qual é o propósito que faz a vida valer, de fato, à pena, e aí chegamos em Westminster. A resposta à primeira pergunta do Catecismo Maior, “Qual é o fim supremo e principal do homem?” é: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.

Com essa curta resposta, os teólogos de Westminster resumem muito bem o que Salomão ensina com maestria em Eclesiastes. Longe de ser um pessimista, o pregador ensina que à parte de Deus, não existe propósito algum que possa dar sentido à vida do homem. É por isso que no fim do livro ele afirma: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem” (Ec 12.13).

O temor do Senhor, algo que foi perdido por conta da queda de Adão (e que levou o homem, por exemplo, a considerar seu trabalho um enfado) é restaurado novamente no homem que é redimido pelo Senhor Jesus Cristo. Somente aqueles que estão em Jesus Cristo podem compreender que a vida só tem sentido quando se vive para a glória de Deus. No Novo Testamento Paulo, então, ordena que quer comendo ou bebendo, o homem deve fazer tudo para a glória de Deus.

Em sua infinita graça e misericórdia, Deus concede àqueles que vivem para glorificar o seu nome a verdadeira alegria. Esta bênção pode ser notada também em Eclesiastes, quando Salomão afirma: “Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se? Porque Deus dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus. Também isto é vaidade e correr atrás do vento”. (Ec 2.24-26).

Só para continuar no exemplo do trabalho, aquele que trabalha para a glória de Deus, não estaria desesperado mesmo que viesse, futuramente, a perder todo o patrimônio, pois, por causa de Cristo, é possível viver contente em toda e qualquer situação (Fp 4.11).

Se você viver para si mesmo, terminará como Forrest Gump, voltando para casa cansado, sem ter nenhuma “meta” alcançada. Pior ainda, pois como afirmou Asafe, “os que se afastam de ti, eis que perecem” (Sl 73.27). Entretanto, se crer em Jesus Cristo e entender que o propósito para o qual você foi criado é glorificar a Deus e ter alegria nele para todo o sempre, além de poder gozar do fruto de seus trabalhos e realizações feitas aqui, debaixo do sol, para a glória de Deus, poderá desfrutar de sua presença bendita e da alegria verdadeira para todo o sempre!

Viva, portanto, para a glória de Deus!

Milton Jr.

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