quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O seu melhor não é o suficiente!

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Ao ler o título acima talvez você tenha pensado que ele não é muito motivador. Talvez tenha passado por sua cabeça que ele até diminui a auto estima de quem está lendo, principalmente nos dias politicamente corretos em que vivemos, onde até mesmo aqueles que não desempenham bem suas funções ou tarefas acabam sendo premiados. Nossa sociedade está criando uma geração de melindrosos que não admite reconhecer suas limitações.

Lembro que na minha infância, para se ganhar uma medalha nos esportes era preciso treinar bastante e ser o melhor. Nos dias de hoje, basta a participação. Todos ganham medalhas, do primeiro ao último colocados. Até mesmo a forma de se expressar a respeito da derrota tem mudado. Recentemente tive de explicar para minha filha que numa disputa de duas pessoas não se “ganha em segundo lugar”.

Se hoje se premia os que não são melhores, imagine então dizer que o seu melhor não é o suficiente. Entendo sua possível estranheza com o título, então, deixe-me explicar melhor a minha afirmação.

Dia desses, conversando com um amigo, ele me disse em relação à sua vida profissional: “Não entendo o que está acontecendo. Não sei o que Deus está querendo. Estou fazendo o meu melhor, mas as coisas não andam”.

Na mesma hora pensei no que está registrado no Salmo 127.1: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela”. Creio que Salomão aponta aqui para dois aspectos. O primeiro é a tônica do livro de Eclesiastes. Penso que o Salmo resume muito bem o livro de Eclesiastes, também escrito por Salomão, que é o fato de que à parte do Senhor tudo é vão. Daí ele afirmar no segundo versículo do Salmo: “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes”. Note que o pão foi ganhado, mas na visão de Salomão, sem uma vida na presença do Senhor tudo é inútil, entretanto, “aos seus amados ele o dá [o pão] enquanto dormem”.

É o Senhor que dá sentido e significado à vida do homem que foi criado para exaltar sua majestade e glória. Daí Paulo ordenar aos Coríntios, “quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Nessa perspectiva, Salomão também diz no livro de Eclesiastes: “Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se?” (Ec 2.24-25).

Mas o segundo aspecto que penso estar sendo descrito por Salomão no Salmo 127 é o que está destacado no título desta pastoral, o fato de que ainda que você faça o seu melhor, se Deus não estiver no processo, de nada adiantará. Isso aponta para a dependência de Deus.

Pense novamente nos primeiros versículos do Salmo. Salomão não está dispensando os trabalhadores que edificam a casa ou a sentinela que vigia a cidade. O ensino aqui é sobre não confiar em si mesmo ou presumir que basta somente fazer o seu trabalho bem feito que as coisas acontecerão. Se o Senhor não edificar a casa e não guardar a cidade, não adianta o trabalho bem feito dos edificadores ou da sentinela. É o Senhor quem edifica a casa e guarda a cidade e ele faz isso por meio do trabalho dos edificadores e da sentinela.

De novo, isso aponta para a dependência que se deve ter de Deus e implica fazer muito bem o seu trabalho, sem nunca se enganar, sabendo que “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em que não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17).

Aqueles que se esquecem desta verdade e atribuem seus feitos e conquistas à sua própria capacidade, roubam a glória de Deus e se entenderão com ele. Um bom exemplo disso está em Isaías 10, onde temos a profecia do Senhor contra a Assíria. Deus iria enviar a Assíria contra Israel. Ela seria o cetro da ira de Deus e a vara em sua mão o instrumento do furor do Senhor a fim de castigar os pecados do seu povo. Entretanto, na cabeça do rei da Assíria ele estaria fazendo isso por conta de seu grande poder e força.

Deus, então, decreta: “por isso, acontecerá que, havendo o Senhor acabado sua obra no monte Sião e em Jerusalém, então, castigará a arrogância do coração do rei da Assíria e a desmedida altivez dos seus olhos; porquanto o rei disse: Com o poder da minha mão, fiz isto, e com a minha sabedoria, porque sou inteligente; [...] Porventura, gloriar-se-á o machado contra o que corta com ele? Ou presumirá a serra contra o que a maneja? Seria isso como se a vara brandisse os que a levantam ou o bastão levantasse a quem não é pau” (Is 10.12,13,15).

Diante de tudo isso, tenha em mente que você deve sempre fazer o seu melhor, com os dons e talentos que tem, para a glória do Deus que concedeu tal capacidade. Depois disso, não coloque a confiança do seu coração no que fez, mas no Senhor que leva a cabo tudo o que ele quer fazer, na hora que ele quer fazer. Isso te fará descansar em seu sábio e soberano governo. Por fim, não esqueça de tributar ao Senhor a glória devida, quando ele abençoar o trabalho de suas mãos.

O seu melhor não é o suficiente! Ele deve vir acompanhado de um profundo senso de dependência, submissão, gratidão e louvor ao Deus que faz todas as coisas por meio de Jesus Cristo (o melhor de Deus para nós), segundo sua própria vontade, usando instrumentos frágeis como eu e você, para a glória e louvor dele mesmo.

Milton Jr.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Aconselhado na defensiva?

Quando as pessoas buscam por aconselhamento, uma premissa geralmente adotada, quer pelo aconselhado quer pelo conselheiro, precisa de atenta revisão. Eis a premissa: assumir que a atitude de vir buscar por ajuda demonstra na prática que a pessoa está disposta a, tranquilamente, rever suas ações e pensamentos sob um escrutínio bíblico, e se engajar em novas atitudes de fé ativa como se essa atitude (de vir aconselhar-se) fosse evidência de pronto arrependimento. Mas o que acabamos por notar na prática é que pessoas com problemas reagem como pessoas com dores: elas fogem. Quando uma pergunta toca num ponto mais delicado, assistimos cenas de argumentação em defesa da questão e/ou indisposição de reavaliar conceitos já sedimentados no coração. Repare: não é sempre, mas acontece com frequência.

Falando em dores... Não foram raras as vezes que na infância eu ralei os joelhos. Me lembro - sem saudades - do quanto minha mãe reclamava de costurar minhas calças na altura dos joelhos. Tenho ainda menos saudades do quanto o mertiolate ardia à medida que entrava nas ranhuras abertas na pele do joelho (sim, sou da época em que ele ardia, e muito!). Minha intenção, fosse qual fosse a brincadeira, não era acabar com os joelhos ralados, mas por não avaliar as consequências que esta ou aquela brincadeira poderia acarretar, eu acabava com lágrimas nos olhos, joelhos ralados e a triste perspectiva de uma sessão de lutas com minha mãe para ministração dos devidos cuidados. Quem já experimentou coisa semelhante sabe que a mesma dor que nos levava na direção da mãe em busca de ajuda, era a dor que nos motivava a correr - ou tentar impedir com as mãos - quando o mertiolate aparecia em cena, que a gente torcia para que não fosse "tão grave" que demandasse sua vinda. 512556522

Usando da ilustração acima, podemos dizer que as várias situações em que nos metemos na vida nem sempre são planejadas para nos deixar com ranhuras na alma. Mas a dor que elas causam nos leva à sala de aconselhamento. Essa dor, entretanto, será a mesma que nos fará levantar com vontade de ir embora, quando tocada por uma pergunta que nos force a encarar o ardor de um medicamento curativo. Se você, conselheiro cristão, procura ser atento ouvinte, perceberá uma ou outra área que precisa de maior profundidade. Ou então perceberá que o aconselhando está cuidadosamente evitando que "os joelhos" da questão sejam tocados. Instintivamente você perguntará por mais dados naquela área, pois entende que sem compreender a profundidade da gravidade do problema, sem realmente conhecer a questão, será incapaz de ministrar o "curativo" bíblico apropriado. E é nessa hora que você percebe uma atitude defensiva ou arredia por parte do aconselhado. É a hora em que ambos percebem que haverá necessidade de mertiolate bíblico.

Depois que o aconselhando construiu sua fortaleza (2 Co 10.5) para proteger sua dor (pecaminosa ou não), e sabendo que cumpre ao conselheiro a missão de destruir tais fortalezas, entendo ser útil que os dois saibam o contexto em que esta batalha se dá. Nessa relação, de conselheiro e aconselhado, não devemos olhar um para o outro como inimigos. As palavras "batalha", "fortaleza" e "destruir" são bastante sugestivas, mas as aplicações ao nosso caso possuem características distintas. O conselheiro não é malvado que deseja sadicamente tocar suas dores para vê-lo gritar; nem o aconselhado reles um pecador contumaz que deseja a todo custo defender seus pecados ocultos. Ambos são pecadores redimidos que precisam lidar com a dor do outro de modo a alcançar a cura que vem da parte de Deus. Repare que o apóstolo Paulo nos chama à destruir o sistema de mentiras e falsas defesas que se levanta contra a verdade, mas esse convite à destruição não é estendido à pessoa a quem Deus nos chamou para ministrar!

Na prática, por hábito, adianto ao aconselhando, quando os sinais de que estamos chegando próximos do "joelho ralado" começam a aparecer, de que apesar de não haver anestesia para o que vamos fazer, a cura vale o desconforto momentâneo. Aviso ainda que o aconselhando deve estar preparado para a dor, e procurar ver "o toque" como curativo, como gesto um de amor. A luta não cessa, é verdade, mas com isso, tenho a intenção dupla de deixar claro tanto o contexto, quanto a missão.

Agora retornemos à questão principal. Quando muita defesa começa a ser apresentada, é importante que a verdade seja dita em amor. O conselheiro deve, com sabedoria e tato, ajudar seu aconselhado a perceber que argumentar não é uma atividade de quem quer ser ajudado, mas sim de se "auto-ajudar". Diga, em amor, a verdade de que defender aquilo que fez, pensou ou concluiu, não contribui para a cura, senão para a permanência do "machucado" tal como está. Que é importante que ele abra mão de se defender para ter em Cristo seu defensor.

Procure, de igual modo, encorajar a pessoa a se dispor a uma inspeção bíblica em sua própria vida. Somos sempre muito prontos a aceitar essa mesma inspeção na vida dos outros. Talvez isso explique a nossa alegre reação quando o pastor, durante a pregação, atinge em cheio problemas que conhecemos na vida dos outros ou na comunidade. Mas quando as flechas apontam para nossa direção, "é recado"! Não será diferente na sala de aconselhamento. Se dispor à uma cirurgia exploratória operada pelo bisturi agudo da Escritura, capaz de dividir juntas e medulas (Heb 4.12) não é uma decisão fácil, mas por vezes se faz necessária. Apresente a esperança de Deus poder usar isso como meio para abençoar como encorajamento, e em caso de se achar algo mais sério, Cristo se encarregará do perdão necessário, mediante arrependimento e fé.

Muitas vezes as pessoas vêm ao aconselhamento armadas de defesas bem ensaiadas. Não se surpreenda caso aconteça contigo. Esteja, porém, preparado para ajudar. Mesmo no caso de uma aconselhado na defensiva, e sob o dever de destruir a fortaleza levantada por ele, nossa missão ainda é uma missão de resgate. Peça sempre para que Deus lhe dê as habilidades, a sabedoria e as bênçãos necessárias para operar como um representante de Cristo Jesus, nosso médico e salvador.

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