terça-feira, 15 de agosto de 2017

Você creu de todo o coração?

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Quando Deus ordenou a Filipe, que vinha fazendo um bom trabalho pregando em Samaria, onde as multidões atendiam às coisas que ele dizia, que fosse a um caminho que se achava deserto, havia um propósito específico. Em sua providência, o Senhor levou Filipe até um eunuco, oficial da rainha dos etíopes, que voltava da adoração em Jerusalém e vinha lendo o profeta Isaías.

Filipe, obedecendo ao Espírito Santo, se aproximou do carro em que estava o eunuco e perguntou se ele entendia o que estava lendo. Diante da negativa e do pedido para que Filipe explicasse o texto, aquele homem entendeu o evangelho e chegando perto de um lugar onde havia água, questionou: “Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” – ao que Filipe respondeu – “É lícito, se crês de todo o coração” (At 8.36,37a).

Para que alguém receba a água do batismo, que aponta para a purificação do coração realizada pelo Espírito Santo, é preciso que se creia em Jesus Cristo. Por essa razão foi que Filipe não se negou a batizar o eunuco que o respondeu: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (At 8.37b).

É claro que essa confissão não é mera declaração do entendimento intelectual dessa verdade, mas deve vir acompanhada de arrependimento genuíno, seguido de uma mudança de vida, na força e no poder do Espírito Santo. Foi por causa dessa verdade que Paulo, então, ordenou aos filipenses que desenvolvessem a salvação, ou seja, que buscassem uma vida de santidade que era possível porque o Deus que os tinha salvado operava neles o querer e o realizar, de acordo com a sua boa vontade (Fp 2.12,13).

Crer de todo o coração significa viver em santidade diante do Senhor e não somente fazer uma declaração formal de arrependimento e fé em Cristo.

Um episódio que demonstra a importância da coerência entre a declaração de fé e a vida de prática está no início dos evangelhos, quando João Batista batizava no Jordão.

É verdade que o batismo de João não era o batismo cristão. Prova disso é que ao encontrar alguns discípulos em Éfeso, Paulo perguntou em que batismo haviam sido batizados e, após ouvir que tinha sido no batismo de João, batizou-os em nome do Senhor Jesus (At 19.1-5).

O batismo de João, conforme Paulo, era um batismo para arrependimento, possivelmente semelhante às cerimônias de purificação do AT. Como João era o precursor do Messias ele exigia uma vida de retidão para que alguém fosse batizado, daí ele exortar enfaticamente: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.7,8).

Acontecia que alguns daqueles que iam se apresentar ao batismo achavam que o simples fato de submeter-se àquele rito os livraria da ira do Messias. O fruto que demonstrava arrependimento, mencionado pelo Batista era a adequação ao que ordenava a Lei. Isso fica claro no evangelho de Lucas, quando as multidões perguntam a ele o que fazer e ele reponde: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. Foram também publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos de fazer? Respondeu-lhes: Não cobreis mais do que o estipulado. Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia fala e contentai-vos com o vosso soldo” (Lc 3.10-14).

Tudo o que João Batista responde tem fundamento na Lei que ordenava a repartir o pão com o faminto e cobrir o nu (Is 58.7), a não furtar (Ex 20.15) e a ter contentamento (Ex 20.17).

É interessante e importante notar essa questão, pois se aqueles que aguardavam a vinda do Messias não conseguiriam fugir da ira vindoura simplesmente por submeter-se a um rito ao mesmo tempo em que viviam em pecado, tampouco estarão seguros aqueles que, após a vinda do Messias, fazem uma confissão correta, submetem-se a um rito ordenado pelo Senhor, mas vivem em pecado.

A Escritura é bem clara a esse respeito: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9). O batismo cristão é, então, para aquele que crê de todo o coração e essa atitude é evidenciada numa busca de santidade, que é viver no padrão estabelecido pela Lei do Senhor e que pode ser buscado na força e poder do Espírito Santo.

Você creu de todo o coração? Tem buscado conhecer a Palavra a fim de poder viver em acordo com ela? Tem procurado honrar ao Senhor? Se sim, saiba que há uma má e uma boa notícia. A má é que mesmo que busque viver dessa forma, ainda pecará. A boa é a garantia de que “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

Sonde o seu coração e se perceber que, ainda que batizado e membro de uma igreja, ainda não crê de todo o coração arrependa-se e busque verdadeiramente a Cristo. Ele é poderoso para perdoar os seus pecados e transformar a sua vida.

Milton Jr.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Confissão de fé desalinhada com a prática: o que fazer?

Normalmente as pessoas vivem a vida sem preocupações maiores com a relação que os eventos cotidianos possam ter com seus compromissos de fé. Este já poderia ser considerado como um quadro ruim, mas pode piorar: as pessoas podem reagir a estes eventos ainda menos conscientes do quanto seus compromissos de fé devam interferir e guiar estas mesmas reações.
 
Normalmente é o pastor quem costuma ver e se preocupar com esta lacuna no entendimento prático das pessoas. Esta preocupação (no bom sentido) pode ser vista pela constante abordagem do tema "cosmovisão" e das consequentes exortações para que o crente viva de acordo com a visão de mundo defendida por sua fé cristã. Em outra ocasião me referi ao fenômeno resumindo-o na anedótica frase "na prática a teoria é outra!", que intitulou post em outro blog. Lá eu escrevia sobre a incoerente inconsistência de uma vida que, na prática, acaba mostrando valores opostos (ou no mínimo desalinhados) com aqueles valores que alguém diz "oficialmente" defender. Sob a premissa de que aquilo que temos arraigado no coração será invariavelmente o controlador da conduta, defendi que a teoria internalizada é aquela que conduz a prática.
 
O problema todo reside na ausência de reflexão e exame dessa teoria, que já pode estar enraizada no coração, mas não feita explícita em confissão pública. O resultado final era (e ainda é) uma esquizofrenia cosmovisional: vivo pelo que não professo - professo o que não conheço - não conheço aquilo pelo que vivo... Apesar de todos os esforços pastorais, parece que o incômodo permanece.
 
Toda vez, porém, que um aconselhado apresenta essa característica tão comum a todos nós, somos desafiados a, mais uma vez, vasculhar o tema e a melhor forma de abordá-lo. Você reconhecerá facilmente o problema quando, após algum tempo de atenta coleta de dados, perceber que apesar da confissão cristã, seu aconselhado toma decisões práticas pautadas num entendimento alheio ao evangelho de Cristo. Confusos, eles pedem por ajuda uma vez que os resultados pretendidos, ou a satisfação prometida (pelo ídolo), não foi alcançada. Em alguns dos casos, Deus é discretamente mencionado como um elemento incógnito, visto que abertamente é difícil assumir que nossa frustração é dirigida contra Ele.
 
 
À guisa de corrigir esta lacuna importante, muitas vezes ainda escondida do entendimento do aconselhado, nosso primeiro ímpeto é apresentar uma bem-estruturada aula de cosmovisão bíblico-cristã. Compreendo que até seja necessária uma boa dose de ensino no processo, mas uma coisas precisa ficar clara para o conselheiro de início: que somente Deus pode realmente alterar a cosmovisão de alguém.
 
A maneira como interpretamos o mundo e como sobre ele agimos são afluentes do coração ("Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida". Pv 4:23). Como afluentes de um rio, recebemos de fora dos nossos leitos as águas amargas e doces que nos vêm, e também despejamos de nossas águas para fora de nós. À menos que a nascente do rio do coração seja alterada, tanto a maneira como recebemos águas, como a maneira como as despejamos, será contaminada pela forma como interpretamos ambos os fenômenos, e tudo nasce no mesmo ponto: do homem interior do coração (1 Pe 3.4). Ainda assim, a missão dos pastores de alma, quer na condição oficial de pastores (de ofício), quer no chamamento por Deus no corpo de Cristo como conselheiros, não podem realmente mudar o ser interior de ninguém. Tanto um como outro não foram chamados para mudar pessoas, mas para 1. proclamar as virtudes daquele nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9), 2. vivendo vidas dignas do evangelho pregado (Fp 1.27), 3. ministrando com zelo e fidelidade as verdades que receberam (2 Tm 2.15; 1 Co 4.2), 4. na esperança que não frustra (Gl 5.5; Cl 1.5; Tt 1.2; Hb 6.11) que Deus soberana e graciosamente agirá através deles como seus instrumentos (1 Pe 1.12; 1 Co 3.5; 4.1) na captura de seus escolhidos e edificação e crescimento dos já capturados (Jo 4.23; 1 Co 3.6; 1 Pe 4.10; Rm 14.19; Ef 4.12).
 
Dito isso, prosseguimos na busca por servir a Deus, servindo ao próximo naquilo que for bom para edificação (Rm 15.2). Ajudar ao nosso irmão/próximo aconselhado a interpretar os acontecimentos e nossas reações a eles, sob a ótica (ou cosmovisão se preferir) da fé cristã tal qual disposta nas Escrituras Sagradas serve bem a este propósito.
 
O convite ao exame nem sempre vem de modo direto. Na maioria das vezes ele vem formatado na conversa simples e aparentemente despretensiosa do aconselhamento, servida como pergunta, que põe junto o princípio esquecido e a reação prática. Na busca por ouvir coerência entre princípio e comportamento, como numa dança haverão movimentos que visam se esquivar das conclusões lógicas mais óbvias. Endurecer sem perder a ternura não vai adiantar. Será preciso mais.  Será preciso mais paciência, mais amor e mais criatividade principalmente. O que ajuda muito nesse processo é refazer a pergunta de outras formas ou refazer o quadro com outros personagens ou situação. Entretanto, não esqueça de manter a conclusão estritamente igual. Se quiser aprender mais sobre isso, procure o professor e profeta Natan. Ele dá uma aula de como fazer seu aconselhado chegar à conclusão de que a profissão de fé não "bate" com a atitude tomada (ou pretendida). [A aula pode ser encontrada aqui: 2 Sm 12.1-14].
 
Como numa dança (ou num embate no tatame, se preferir), pode haver muita movimentação mental. Corre pra lá, esquiva de cá. O importante é não desistir de fazer a confrontação entre teoria e prática, mantendo a criatividade em amor e graça nos movimentos, porque o aconselhado precisa reconhecer seus padrões de procedimento.
 
A importância do reconhecimento do esquema (estrutura) de interpretação de um aconselhado dá aquela consciência que ajuda na sondagem dos padrões que dominam o pensamento e as ideias que moldam as ações humanas. À isso há quem chame de "ato antes do ato". É o mesmo que dizer que o esquema de interpretação revela a base teórica para a prática. Veja que tais coisas não são elementos distintos, ou seja, como coração e atitude não estão dissociados, quando houver entendimento de um, haverá compreensão do outro, e quando houver mudança em um, haverá alteração no outro... Então, é importante que tenhamos em mente a importância central que este processo inicial do coração tem sobre as atitudes, e de igual modo, a crescente consciência e habilidade para fazer nosso irmão aconselhado enxergar isso na vida dele também, pelas lentes transformadoras da Escritura Sagrada.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Perdão, uma forte marca do cristianismo.


perdao1Uma das grandes marcas do cristianismo foi a prática do perdão. Foi, sem dúvida alguma, uma das práticas estranhas dos cristãos ao mundo pagão. O conceito estritamente bíblico, testemunhado pelos cristãos, era de difícil compreensão pelos ímpios contemporâneos da igreja primitiva.

Naqueles primeiros séculos de perseguição intensa contra a igreja, o que se constata não é uma geração amarga, desanimada, destruída pelo ódio. O que encontramos é uma igreja buscando refúgio em Deus e encontrando em Cristo todo o consolo necessário para aqueles momentos mais difíceis, em que de fato a fé pressionada pela dor do luto ameaçava declinar e esmorecer.

É evidente que este breve artigo não tem a intenção de detalhar historicamente esta marca distinta do cristianismo. Apresentei somente uma singela introdução sobre o perdão para ponderar pastoralmente como o perdão é bíblico, e por ser bíblico é importante e quais são os nossos desafios atuais. Vejamos:

Há uma estranha postura na cultura cristã evangélica atual que cria frases como:

· Não consigo me perdoar;

· Você precisa se perdoar;

· Deus perdoa e você, se perdoa?;

· Se o outro não se arrepender eu não tenho que perdoar;

· Você deve perdoar para ser perdoado;

· Não acredito no perdão;

· Perdoe para que você possa se sentir melhor;

· Não preciso perdoar ninguém, só Deus pode perdoar.

Se você se identificou? Faz uso de algumas destas expressões? A dor causada contra você foi tão grande que até hoje você revive tal tormento? Bem, há uma boa notícia. Na realidade, há uma boa nova. Vamos juntos contemplar a perfeita Palavra de Deus que pode trazer alívio e refrigério para aquele que está abatido.

Minha primeira consideração: a Palavra de Deus é a única que pode corrigir os rumos do nosso coração. Então precisamos lembrar sempre e crer continuamente neste fato. A Palavra de Deus é a nossa única e suficiente regra de fé e prática. A Palavra de Deus tem poder para fazer o que ela mesma diz que faz.

A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices. Salmo 19.7

Segunda consideração: Perdão pressupõe pecado.

Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. 1João 1.8,9

Pecado é errar o alvo, é afrontar deliberadamente a Lei do Senhor. Pense a respeito da gravidade e profundidade deste erro. Quando pecamos, ignoramos a presença de Deus e de Jesus Cristo, rejeitamos o caminho da santidade, desprezamos a graça e tão somente procuramos satisfazer algum desejo pessoal inadiável.

Terceira consideração: palavras motivacionais ou frases de efeitos apreendidas em sermões pode aliviar temporariamente o conflito da alma. Porém, trazer cura para a alma, somente a Palavra de Deus.

Por que tal alerta? Há diversas mensagens que visam promover bem-estar aos ouvintes, porém, sem confronto com o pecado. Então, ao invés de procurar ter uma vida melhor, deveríamos buscar uma vida mais santa. Aí sim, teríamos uma vida melhor, pois estaríamos mais próximo de Deus.

Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.  Hebreus 12.14

Há uma base bíblica para o perdão.

Com isso quero dizer que o perdão não depende de um sentimento de boa vontade.

Perdoar implica em obediência a Palavra de Deus.

Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; Colossenses 3. 13

Perdoamos porque, antes de qualquer outro pensamento ou inclinação do coração, o Senhor nos perdoou.

Evidentemente que há benefícios para a prática do perdão. Sensação de liberdade, aquela impressão de “leveza”. Muitos pregadores enfatizam os benefícios do perdão como se fosse uma pílula. Erram ao ensinar que simplesmente você deve perdoar para sentir-se livre.

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. 1 Coríntios 10.31

Perdoamos porque há uma orientação bíblica. Perdoamos porque queremos obedecer a Cristo. Perdoamos para a glória de Deus.

Quarta consideração: Aqui nesta consideração, gostaria de citar e recomendar o livro de Robert D. Jones, intitulado Perdão, publicado pela Editora Nutra. Vejamos o que ele disse:

“É possível ainda que essa pessoa nunca tenha conhecido verdadeiramente o perdão de Deus por meio do arrependimento e da fé salvadora em Cristo (MC 1.15; At. 20.21). Ela pode conhecer os fatos do evangelho, mas talvez nunca tenha tido um encontro pessoal com Cristo. Ou talvez tenha ideias distorcidas a respeito de arrependimento e fé.”

É possível encontrar muitas pessoas dentro da igreja que não tenham encontrado em Cristo, a razão completa da sua esperança. Homens e mulheres que se ambientaram em uma cultura cristã evangélica, de certo terão grandes problemas ao olharem para as exigências da Palavra de Deus que envolvam aspectos tão íntimos. Quanto a estes, minha oração é que se arrependam dos seus pecados e se submetam ao senhorio de Jesus Cristo.

Quinta e última consideração: As pessoas não deveriam “forçar a barra” na autojustiça. Em algum dado momento parece que começaram a legislar como se fossem juízes, para os outros e para si mesmas. Pessoas que não conseguem perdoar ou se perdoar por algum motivo pessoal, ou, por terem recebido uma instrução errada e ruim, necessitam de ser reconduzidas para a Palavra de Deus.

O perdão é realmente libertador! É um dos atos que praticamos que demonstra que não somos mais escravos do pecado. Cristo nos libertou para que pudéssemos ser parecidos com ele. Esta é uma grande e maravilhosa obra que ele mesmo começou e um dia há de termina-la. Esta é uma magnífica e santa esperança.

Perdão bíblico não é movido por sentimento, mas por obediência a Cristo e a sua Palavra.

O maior prazer daqueles que nasceram de novo, daqueles que experimentaram a regeneração e o perdão de pecados em Cristo, não é o alívio temporário em seus próprios méritos. O maior prazer do cristão é desfrutar da presença de Jesus Cristo, seu senhor. Honrá-lo e obedecê-lo enquanto o adoramos é o verdadeiro anseio do nosso coração.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Homens como árvores? - A importância da antropologia no aconselhamento

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Se você está familiarizado com as Escrituras certamente sabe que o título é uma alusão à resposta do cego que foi curado por Jesus em duas etapas, após este lhe perguntar: “Vês alguma coisa?”. A resposta completa foi: “Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando” (Mc 8.24,24).

Talvez você saiba que esta passagem não trata de antropologia, o que é também do meu conhecimento, portanto, não desista ainda da leitura achando que é perda de tempo ler um texto que já começa citando uma passagem “fora do contexto”, mas tenha paciência e continue comigo.

O capítulo 8 do evangelho de Marcos começa com o relato da multiplicação de pães e peixes. Jesus, compadecido de uma multidão que permanecia com ele já há três dias, realizou um milagre multiplicando sete pães e alguns peixinhos e, após a multidão comer de se fartar, ainda sobraram sete cestos de pedaços de pães (Mc 8.1-10).

Depois desse milagre maravilhoso, os fariseus tentam ao Senhor Jesus e pedem um sinal dos céus. Este responde que nenhum sinal lhes seria dado e a passagem paralela, no evangelho de Mateus, informa que, “senão o de Jonas” (Mc 8.11,12; cf Mt 16.4). Jesus estava se referindo à sua morte e ressurreição, que ocorreria mais à frente, perto do fim do seu ministério terreno.

Esse contexto é importante, pois ao passar para o outro lado do mar da Galileia, Jesus advertiu os discípulos que tivessem cuidado com o fermento dos fariseus e saduceus. Diante dessa palavra de Jesus os discípulos começaram a discutir entre si, dizendo: “É que não temos pão” (Mc 8.16). Jesus interrompe e pergunta àqueles que estavam com ele e testemunharam o milagre a razão de estar discutindo sobre o não ter pão. Eles não compreendiam? Ele ainda não tinha entendido quem estava com eles? O Senhor, então, pergunta sobre as duas ocasiões em que ele havia feito o mesmo tipo de milagre. Quantos cestos de pedaços eles haviam recolhido quando Jesus partiu 5 pães para cinco mil? “Responderam eles: Doze!” (Mc 8.19). Quantos cestos eles haviam recolhido quando ele partiu 7 pães para quatro mil? “Responderam: Sete!” (Mc 8.20).

Diante da resposta Jesus perguntou: “Não compreendeis ainda?” (Mc 8.32). Ele já os havia repreendido, também, nos versículos anteriores: “Por que discorreis sobre o não terdes pão? Ainda não considerastes, nem compreendestes? Tendes o coração endurecido? Tendo olhos, não vedes? E, tendo ouvidos, não ouvis?” (Mc 8.17-18). Aqueles homens, apesar de terem visto os milagres, ainda não tinham uma visão correta acerva de quem era Jesus.

É nesse contexto que acontece a cura em duas etapas (Mc 8.22-26). Chegando em Betsaida, um cego é levado até Jesus. Ele o leva para fora da aldeia, aplica saliva em seus olhos, impõe as mãos sobre ele e pergunta se ele estava enxergando. Ele via vultos. Ele via o que parecia ser árvores, mas como estavam andando, ele deduziu que se tratavam de homens. É nesse ponto que Jesus novamente coloca as mãos nos olhos daquele homem “e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito”.

A história que se segue (Mc 8.27-30) nos mostra a razão de Jesus ter curado aquele homem em duas etapas. Certamente não faltou poder a Jesus, mas uma lição precisava ser aprendida.

Indo para Cesaréia, Jesus perguntou aos discípulos o que os homens diziam a respeito dele. “João Batista; outros Elias; mas outros: Algum dos profetas”, responderam eles. Diante da resposta, Jesus pergunta diretamente aos discípulos: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?” – e Pedro, tomando à frente, responde – “Tu és o Cristo”.

A lição é clara. Os homens podiam ter até uma certa noção a respeito de quem era Jesus. Ele, de fato, era um profeta. Mas essa visão acerca do Mestre era tão turva quando à do cego, antes de ser curado completamente. Já Pedro respondeu corretamente. Estava ali o Messias, aquele que havia sido profetizado no Antigo Testamento. Como é que um homem que a pouco foi acusado, junto com os demais discípulos, de não compreender e ter o coração endurecido agora “tudo distinguia de modo perfeito?”. A resposta está na passagem paralela, no evangelho de Mateus. Após a resposta de Pedro Jesus afirmou: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17). Somente Deus pode tirar os homens de sua cegueira e fazê-los entender corretamente quem é o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.

O entendimento correto a respeito de Jesus é essencial à salvação. Ele mesmo afirmou em sua oração sacerdotal: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

Homens ou árvores?

Entretanto, não é preciso conhecer somente a respeito de Cristo corretamente. É preciso que o homem tenha também uma noção correta acerca de si mesmo, como um pecador que carece da graça e da misericórdia de Deus. Como afirmei desde o princípio, o propósito da passagem da cura do cego não é ensinar antropologia, mas mostrar que só é possível “ver” a Cristo corretamente por uma obra do próprio Deus, no caso, o Espírito Santo. Entretanto, da mesma forma que só foi possível ao cego enxergar os homens, fisicamente, por causa de Cristo, só é possível chegar a uma visão antropológica correta a partir da Palavra de Cristo, que nos revela o Pai.

Calvino ensina que “é notório que o homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão dele desça a examinar-se a si próprio”[1]. Enquanto não se vê pecador e carente de Deus o homem não buscará a Cristo, mas para que ele chegue à essa conclusão, é preciso que ele entenda primeiro o quão santo é o Senhor.

Aqueles que creem em Cristo são feitos filhos de Deus e agora fazem parte da família da fé. Agora começa uma nova caminhada, uma caminhada de santificação que tem por fim tornar cada cristão semelhante a Jesus Cristo, pois esta é a razão da nossa eleição, conforme Paulo (Rm 8.29; 1Jo 3.2; Cl 3.10). Conforme a Bíblia, o instrumento que Deus usará para forjar em seus filhos o caráter do seu Filho Unigênito, nosso irmão mais velho, é a Palavra. Ela é viva e eficaz, poderosa para discernir os pensamentos do coração (Hb 4.12). Ela é perfeita e restaura a alma (Sl 19.7). Ela é inspirada por Deus e útil para tornar o homem perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra (2Tm 3.16,17). Ela nos revela a Cristo, em quem temos todas as coisas suficientes para a vida e para a piedade (2Pe 1.3).

A despeito disso, muitos cristãos têm deixado de lado a Palavra e se voltado para as ciências sociais a fim de resolver os seus problemas, conflitos, traumas, etc. Talvez você questione: Qual seria o problema disso já que os teóricos tanto estudaram o homem e podem ter boas percepções a respeito dele? Dentre tantas questões, vou me deter à questão da antropologia.

Primeiro é preciso deixar claro que eu entendo que muitos desses homens, que se dedicaram e se dedicam a compreender o homem e seus problemas, têm boas intenções. Eles sabem que há algo errado, buscam descobrir as causas e tentam propor soluções. Agora deixe-me pegar emprestada a figura do cego curado em duas etapas para ilustrar o meu ponto: A despeito da boa vontade, os teóricos das ciências sociais enxergam o homem de forma errada.

O cego via homens como árvores, os teóricos das ciências sociais os enxergam como produto da evolução, como essencialmente bom, como carente de necessidades, etc. Por mais que a observação lhes dê certa noção de que algo está errado, eles nunca compreenderão a razão fundamental dos dilemas humanos. Eles desconsideram completamente a verdade de que o homem foi criado perfeito, à imagem e semelhança de Deus e para viver para a sua glória. Entender que o homem foi criado com um propósito específico e não que ele é simples fruto do acaso, num processo de evolução aleatório, vai fazer uma diferença grandiosa no aconselhamento. O aconselhamento é primariamente para a glória de Deus, levando o homem a estar contente em toda e qualquer situação, à medida em que se submete à Palavra de Deus. Ele não tem por fim principal “solucionar” os problemas do homem.

Por desconsiderarem a Deus e a criação com um propósito específico, os teóricos humanistas também não entendem que houve uma queda, quando Adão caiu em transgressão levando a ele e toda a sua posteridade a estar afastada de Deus (Rm 3.23). Eles não enxergam o homem como um pecador. O resultado disso é que

“um estudo superficial da história da psicologia e de suas patologias propostas revela uma tentativa constante de amenizar a culpa, responsabilizando o meio ambiente, a hereditariedade ou os instintos primitivos evolucionários pelas respostas verbais ou comportamentais”[2],

ou seja, o problema sempre está “lá fora”.

À vista disso, concordo integralmente com o que escreveu Jay Adams:

“Tudo que se pode dizer de Freud é que suas ideias encorajaram pessoas irresponsáveis a persistirem em sua irresponsabilidade e a aumentá-la. Ele deu sua aprovação à conduta irresponsável e a fez respeitável. [...] Freud não fez com que as pessoas se tornassem irresponsáveis; mas forneceu uma fundamentação racional, filosófica e pseudo-científica para as pessoas usarem a fim de justificar-se”[3].

Sem uma antropologia correta, que leve em conta a criação, a queda e a redenção, é impossível tratar efetivamente os problemas da alma. Mais uma vez, recorro à John Babler, que diz:

“O verdadeiro cuidado das almas se importa com o problema fundamental da alma humana, e por isso, a doença do pecado deve ser abordada antes de qualquer outro problema. Munir um aconselhado com mecanismos de adaptação que se limitam a prover alívio temporário pode deixar a sua alma em uma condição devastadora. [...]

O evangelho de Cristo deve ser a prioridade máxima na vida do aconselhado, porque qualquer tentativa de solução que desconsidere o evangelho redentor desculpará o problema, ensinará a justiça própria e apaziguará a culpa, o que endurecerá ainda mais o coração, obscurecendo a compreensão”[4].

Desconsiderar a Deus e o pecado humano, vão levar inevitavelmente a propostas equivocadas de como “consertar” o que está errado. É claro que muito pode ser dito a respeito da antropologia bíblica, mas meu ponto aqui é apontar para a importância de um entendimento correto a respeito do homem a fim de tentar ajuda-lo em seus dilemas. Esse conhecimento só se dá pela Palavra de Deus.

“Adquirir uma perspectiva bíblica equipa o conselheiro para a tarefa de corrigir o que foi arruinado pela busca pecaminosa de uma sabedoria inadequada. O conselheiro deve trabalhar diligentemente na exegese e na compreensão das Escrituras. À medida que as Escrituras revelam o caráter de Cristo, homens e mulheres podem conhecer a Deus. Uma pessoa nunca mais será a mesma depois de ter conhecido a Deus”[5].

Tratar da alma humana sem essa séria consideração é como tentar chegar ao Rio Grande do Sul enquanto dirige pela Br-101 no sentido de Recife. Nem com toda a boa vontade do mundo você acertará. Portanto, não paute o seu aconselhamento pela visão daqueles que enxergam homens como árvores, mas, com a iluminação do Espírito Cristo, aconselhe com as lentes corretivas da suficiente Palavra de Deus.

Milton Jr.


[1] João Calvino. Institutas, Livro I – p. 42 (Ed. Clássica)

[2] John Babler (editor). Os fundamentos do aconselhamento bíblico – p. 102

[3] Jay Adams. Conselheiro capaz – p. 34

[4] John Babler (editor). Os fundamentos do aconselhamento bíblico – p. 92

[5] John Babler (editor). Os fundamentos do aconselhamento bíblico – p. 98

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