quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Ele não se envergonha de vós

 

Muitas coisas podem nos trazer vergonha. Normalmente tais coisas revelam algo sobre nós que publicam nossas fraquezas, imperfeições e erros. A pior dessas coisas é o pecado. Como reação corriqueira, escondemos a todo custo nossos pecados porque ele revela a feiura que carregamos dentro de nós, como no caso da botija com água, que quando quebrada não molha o chão por causa da quebradura, mas porque esta abre espaço para a água armazenada vazar para fora, revelando-se...

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Quando pequeno, se a memória que costuma falhar não me envergonhar agora, recebi uma aula de escola dominical na qual a professora procurava nos ensinar valores e princípios que nos impedisse de colocar a vida em risco. No processo ela procurava exaltar a preciosidade que era ter a presença de Jesus ao nosso lado, e o quão triste seria não privar de tão doce presença. Mas o exemplo que deu me intrigou. Ela disse que se entrássemos em ambientes que desagradassem a Deus, que potencialmente entristecessem o Espírito Santo, ele ficaria lá fora, esperando o meu retorno. Sua tese era de que Deus não tomaria parte nas sujeiras e pecados que tanto nos envergonham.

Cresci e descobri que algo muito pior acontece. Existe alguém de quem nada se pode esconder. Dele, nem os mais ocultos dos segredos está envolto em trevas, pois as mais densas trevas lhe são como luz (Sl 139.12), e o mais profundo dos abismos partilha de sua companhia (Sl 139.8). Na verdade, em todos os momentos da nossa vida Deus caminha conosco e não nos abandona. Se por uma lado isso nos conforta, pois isso significa que ele caminha conosco no vale da sombra da morte (Sl 23.4), isso também quer dizer que ele nos vê debaixo da figueira (Jo 1.48). Em resumo, descobri que Deus não fica lá fora esperando, triste e impotente. Na verdade, carrego junto a mim o Deus santo e puro para dentro dos meus pecados, tendo-o como testemunha fiel de todos os meus atos. Ai que vergonha!

Certa feita ouvi um amigo pastor dizer que a admiração que as pessoas lhe tinham era em boa parte devida àquilo que elas não sabiam dele. Num tom de brincadeira ele avisava: "Paulo dizia ser o principal dos pecadores... porque não me conheceu!" E em outra ocasião acrescentou: "Se você me conhecesse como sou, não seria meu amigo..." Eu particularmente acho que ele está certo, afinal, temos um senso de julgamento tão falso e hipócrita que esperamos que as pessoas sejam melhores do que parecem, ou pelo que atinjam a medida do que estabelecemos. Certo adágio popular diz que "as pessoas vêem as pingas que tomo, mas não os tombos que levo". Piada à parte, frequentemente nos esquecemos do quanto todos somos indignos das amizades e bênçãos que recebemos do Senhor Deus como ato de pura graça. Mas o que aconteceria se alguém nos conhecesse como realmente somos? Qual seria a reação de alguém que soubesse cada passo errante que demos e cada queda que tivemos?

Vergonha alheia é a expressão que vem à mente. As pessoas se afastariam, como realmente alguns experimentam tal afastamento, porque as pessoas não querem ser vistas ou associadas a certos tipos de pessoa. Isso lhes envergonha. E olha que nunca sabemos a verdade mais profunda sobre ninguém. Mas há quem saiba. Deus é o único que sabe tudo sobre todas as coisas, e por implicação, sabe tudo sobre você e eu. Sim, Deus conhece a minha afronta, a minha vergonha e o meu vexame (Ps 69.19). E é cada vexame que a gente passa, não é? Novamente, se por um lado isso é consolo, pois ele sabe e conhece nossas limitações, sofrimentos, angústias e profundas motivações; por outro é aterrador saber que alguém sabe os mais profundos sentimentos, pecados e temores do coração.

cruz-frameEntão, preste atenção à boa notícia que o autor aos Hebreus nos traz: "Pois, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só. Por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos" (Hb 2.11) e "Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade" (Hb 11:16).

O único que poderia com justiça se envergonhar de nós em sua companhia, não se envergonha de nós. Nosso passado não nos condena, pois antes do passado existir, Deus resolveu que seríamos dele, nos amou e enviou seu filho para nos salvar. Nossos erros não nos condenam porque os acertos de Cristo Jesus nos justificam. E por causa dele, Deus apaga as nossas transgressões por amor de si mesmo e dos nossos pecados não se lembra mais (Is 43.25). Ele perdoou as nossas iniquidades e dos nossos pecados jamais se lembrará (Jr 31:34). Aquilo que encurvava nossa fronte de vergonha foi tomado por Jesus, que colocou sobre os próprios ombros toda ignomínia da nossa vergonha, no lugar de usufruir da alegria que lhe estava proposta, suportando a cruz em nosso lugar (Hb 12.2). Na prática da esperança diária e do aconselhamento, ao lidar com o pecado e suas consequências, é sempre um bálsamo relembrar ao aconselhado (e a si mesmo) de que Deus não se envergonha de nós. A vergonha que nos cobre no momento será tornada em glória, quando as vestes sujas do vexame forem trocadas pelas brancas veste de louvor (Is 61.3; Ap 3.18, 7.13). Então quando o autor aos Hebreus diz em alto e bom som que das mãos dele vieram o santificador e o santificado e por isso ele não se envergonha de nós é porque um dia, passado o vexame, a vergonha e a afronta, e já habitando na pátria superior, seremos troféus da sua graça.

livreQuando o foco sair da necessidade de confissão para a dura e dolorida luta contra a vergonha, saiba encorajar o fraco e animá-lo (verdadeiro sentido e exortação) com a bendita verdade apresentado na Escritura sobre como Deus lidou com nossa vergonha e em como sua glória pode agora brilhar em nós. Não é a nossa perfeição, obediência à lei ou exemplar vida cristã que manifesta a abundante graça sobre nós derramada, mas quando a perfeição de Cristo, sua perfeita obediência e vida são apropriadas por nós pela fé. Se podemos viver vidas diferentes, é porque Cristo nos redime. Então, de cabeça erguida, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel (Hb 10.19-23).

Jônatas Abdias

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Motivação

 

motivação-498x273Manter-se motivado tem sido um grande desafio atual. O mundo corporativo investe pesado nesta área, promovendo encontros, seminários, palestras, visando motivar seus empregados para o bem da empresa.

Na igreja também encontramos este desafio. É cada vez mais comum ouvirmos reclamações do tipo: “a igreja está muito fria”, “o louvor na igreja não empolga”, “não encontro forças para sair de casa e ir para a igreja” ou, “hoje o culto foi frio” portanto, “não sei se voltarei mais a igreja deste jeito”.

Estas afirmações, evidentemente, refletem algo a ser observado bem de perto, afinal, tais afirmações ou pensamentos refletem a teologia da pessoa, a forma como ela crê e como ela interpreta o mundo e seus desdobramentos.

Não ignoramos o fato de que tribulações, pecado e as próprias dificuldades naturais da vida, tendem a gastar ou dissipar nosso vigor. Entretanto, não podemos ficar reféns de uma impressão sentimental, subjetiva e secularista sobre como interpretaremos os fatos.

Nossa geração foi destreinada na lida com dificuldades e sofrimentos. Lembro-me de um medicamento muito usado na minha infância, o famigerado “Merthiolate”, ainda com a fórmula que “ardia”. Quando machucávamos, chorávamos duplamente. Chorávamos por causa do machucado e por causa da proximidade da aplicação do remédio. Hoje, com a nova fórmula, não há mais dor provocada pela aplicação.

Nossa geração está sendo treinada a não tolerar a dor, como se a dor não fizesse parte da vida. Nossa geração não sabe ouvir um não, não sabe ser reprovada, não suporta a ideia da não visibilidade. Vemos como isso funciona, por exemplo, nas mídias sociais. Após postar algum texto, foto, ou algum comentário, todos ficam aguardando para ver quantos “likes” a referida postagem terá. Se ninguém clica no “like”, há um abatimento e tristeza.

Quando o assunto é a igreja, o culto a Deus, a vida cristã, devemos ter a motivação correta, mesmo não obtendo os “likes” necessários, ou mesmo em meio a algum sofrimento.

17Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, 18 todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. (Habacuque 3.17 e 18)

Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. (Salmo 73.25)

Ao pensar em motivação (ou na falta dela), consideremos algumas perguntas.

1 – Nossa motivação ocorre somente quando as coisas acontecem de acordo com a nossa vontade?

2 – Nossa motivação depende da compreensão e aceitação de outras pessoas?

3 – Nossa motivação depende do aprovação e aplausos dos outros?

4 – Nossa motivação gira em torno do nosso próprio bem-estar?

5 – Nossa motivação depende de encontrarmos forças dentro de nós?

6 – Nossa motivação depende do que podemos ver?

7 – Nossa motivação é para a glória pessoal?

8 – Nossa motivação é para a glória de Deus?

Sei que muitos cristãos atuais já leram que Jesus foi o maior motivador de todos os tempos. Vejamos como Jesus motivou seus seguidores:

Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. (Mateus 8.20).

À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele. 67 Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós outros retirar-vos? (João 6. 66 e 67).

Isso não soa como palavras motivacionais, conforme o atual padrão. O Senhor Jesus está desestimulando seus seguidores, especialmente os apóstolos, a ter o comprometimento de barganha, para um comprometimento eterno com a cruz, com o reino de Deus e com o próprio Senhor Jesus, mesmo que isso custe perder tudo.

O Salmo 77 revela claramente como a angústia e a dureza de coração podem impedir, temporariamente, vermos a grandeza de Deus. Vejam a sequência de perguntas que Asafe apresenta:

Rejeita o Senhor para sempre? Acaso, não torna a ser propício? 8 Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações? 9 Esqueceu-se Deus de ser benigno? Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias? (Salmo 77. 7-9)

Em sendo assim mesmo, ou seja, se tudo o que Asafe estava pensando sobre Deus era assim mesmo, evidente que ele estava mesmo angustiado. Entretanto, ele esclarece no versículo 10: Então, disse eu: isto é a minha aflição; mudou-se a destra do Altíssimo.

O coração e a mente de Asafe foram iluminados e finalmente ele conseguiu reencontrar alegria e real motivação para continuar louvando a Deus (Salmo 77.13 – Que Deus é tão grande como o nosso Deus?).

A Palavra do Senhor é o instrumento usado por Deus para nos ajudar a lembrar que o nosso bom Deus é o Deus Altíssimo. As tentativas em transformar as pregações em mensagens de autoajuda, temporariamente apresenta um efeito anestésico e parece ser o melhor. Entretanto, no dia mau, no dia da sequidão, no dia da tribulação, diante da tentação, onde encontrará forças para resistir ao pecado, ao desespero e ao desânimo? Onde encontrará forças? Em si mesmo? Olhará para o próprio interior? Buscará o exemplo falho de homens pecadores e limitados? Ou erguerá os olhos para além das nuvens para contemplar o Senhor assentado em um alto e sublime trono? (Isaias 6.1).

Evidentemente não se deve desprezar aquele momento angustiante da falta de motivação. Porém, não podemos correr o risco de sermos complacentes e ignorar o pecado e a dureza de coração. Deveríamos ser eternamente gratos a Deus pela salvação em Cristo. Cristo é a razão para não desanimarmos. Cristo é a razão para termos sempre a correta motivação para absolutamente tudo nesta vida.

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.                          (1 Coríntios 10.31).

Tudo o que fazemos devemos fazer para a glória de Deus e de Cristo Jesus. Sendo assim, encontraremos real motivação, mesmo diante de grandes desafios, mesmo em fraqueza e grande temor, se realmente nos comprometermos em fazer tudo para a glória de Deus.

Qual a sua real motivação? Sua felicidade é o que o motiva? Seu prazer é o fator motivacional? Se assim for, sua motivação será sempre como uma poeira ao vento, frágil e volátil.

Nossa motivação está baseada na vitória de Jesus na cruz do calvário. E, porque Cristo já fez, agiremos sempre em resposta ao bem que ele já nos proporcionou.

Seremos felizes em Cristo e tão somente nele.

Oro para que sua motivação seja santificada para a glória de Deus!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Orando a um Deus soberano e providente

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“O que Deus é?”. Esta pergunta, de número 4 do Breve Catecismo de Westminster, traz uma resposta maravilhosa: “Deus é espírito, infinito, eterno e – repare bem o que vem a seguir – imutável eu seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade”.

A verdade de que Deus é imutável traz segurança àqueles que confiam em sua Palavra. A segurança da salvação, por exemplo, está firmemente enraizada nesse conceito, o que explica a convicção de Paulo quando escreveu aos filipenses afirmando que estava “plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Entretanto, em se tratando de oração, muitos cristãos não têm levado em conta a doutrina da imutabilidade de Deus. Por essa razão entendem que de alguma forma podem mudar a vontade de Deus, por meio de suas orações.

Enquanto escrevo, me vem à mente um episódio ocorrido em meu primeiro ano de seminário. Eu e alguns amigos tínhamos ido a uma igreja dita evangélica a fim de entrevistar líderes sobre o tema: “a oração muda a vontade de Deus?”. Liguei o gravador e o pastor começou a responder convicto com um firme “sim”. Ele tentou, então, provar biblicamente sua posição, dizendo: “Você lembra a história daquele homem (ele não lembrava o nome de Abraão!) que pediu a Deus para não destruir a cidade se houvesse nela trinta justos?”. Acho que enquanto contava a história ele lembrou que a cidade foi destruída, até que por fim afirmou: “Se a oração não muda a vontade de Deus é melhor servir ao diabo”.

Por mais chocante que possa parecer, o que esse homem disse reflete aquilo que não é dito, pelo menos não tão abertamente assim, por muitos outros cristãos que entendem que Deus deve estar pronto a ceder a seus desejos (ou caprichos?), ao ouvir uma oração feita “com muita fé”. Esses acabam se igualando aos pagãos que, nas palavras de Jesus, “presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos”. O interessante é que na sequência desse texto, o Senhor exortou a seus discípulos, dizendo: “Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.7,8).

Daí, então, vêm aqueles que, não menos enganados, dizem que não é preciso orar, pois Deus já sabe o de que necessitamos e não vai mudar de ideia, caso peçamos o contrário. Esquecem-se, esses, que após afirmar que o Pai sabe o de que seus discípulos têm necessidade, Jesus ordenou: “Portanto, vós orareis assim” (Mt 6.9); e que Paulo ordenou aos tessalonicenses que orassem sem cessar (1Ts 5.17).

Como entender corretamente a oração? Aprendamos com o rei Davi. Ao ler o Salmo 139 você pode notar que Davi tinha convicções bem firmadas a respeito da vontade soberana de Deus em sua vida. Ele escreveu: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16). Uma convicção dessas talvez fizesse com que muitos deixassem de orar, o que não foi verdade na vida de Davi, pois, a começar desse Salmo, podem ser encontradas várias outras orações do rei, em diversos momentos de sua vida.

Pois bem, você deve lembrar de um desses momentos. Em determinado ponto de sua vida Davi cometeu adultério com Bate-Seba, que veio a engravidar. Após toda a trama do rei para trazer Urias da guerra a fim de que se deitasse com sua esposa e pensasse que o filho era dele (plano que não foi bem-sucedido) e que terminou com a ordem de Davi para que Urias fosse colocado à frente do exército para morrer o que, de fato, ocorreu, Davi tomou Bate-Seba por esposa e tudo parecia bem. Ele tinha “resolvido” o seu problema (2Sm 11).

Entretanto, Deus enviou Natã a Davi e este foi confrontado pelo profeta acerca de seu pecado. Após arrepender-se, Davi ouviu de Natã que Deus o havia perdoado, mas que por causa do que havia feito seu filho, fruto do relacionamento adúltero com Bate-Seba, morreria (2Sm 12.1-14). O versículo seguinte informa que, após Natã ir para casa, o Senhor fez enfermar a criança (12.15).

O que faria, diante de uma palavra tão enfática do Senhor, um homem que entendia que todos os seus dias estavam escritos e determinados? O texto nos informa: “Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite prostrado em terra” (12.16). Davi orou e jejuou por sete dias, ao cabo dos quais a criança morreu. Diante disso, Davi levantou-se da terra, lavou-se, ungiu-se, adorou a Deus, foi para casa e alimentou-se. Seus servos, espantados, perguntaram o que ele estava fazendo, pois pela criança viva ele havia jejuado e orado, e agora que era morta ele havia levantado e comido pão.

A resposta de Davi aponta para a sua submissão: “Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” – o texto continua – “Então, Davi veio a Bate-Seba, consolou-a e se deitou com ela; teve ela um filho a quem Davi deu o nome de Salomão; e o Senhor o amou” (cf. 2Sm 12.17-25).

O que pode ser notado aqui é que Davi, ainda que tivesse ouvido de Deus acerca da morte de seu filho, não se privou de clamar ao Senhor, mas com uma atitude de submissão, notada na expressão “quem sabe”, ou, em outras palavras, “se o Senhor quiser...”. Deus havia dito que a criança morreria, mas não havia dito quando e Davi, então, rogou pela misericórdia. Talvez isso soe para alguns como uma contradição, mas é bom lembrar que o próprio Senhor Jesus orou ao Pai pedindo que, se possível, o livrasse da cruz, mas que frisou, “contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc 14.16).

Aqui o ensino do Breve Catecismo pode nos ajudar mais uma vez: “Oração é um oferecimento dos nossos desejos a Deus, por coisas conformes com a sua vontade, em nome de Cristo, com a confissão dos nossos pecados, e um agradecido reconhecimento de suas misericórdias” (P. 98) – e mais – “Na terceira petição, que é: ‘Faça-se tua vontade, assim na terra como no Céu’, pedimos que Deus, pela sua graça, nos torne capazes e desejosos de conhecer a sua vontade, de obedecer e submeter-nos a ela em tudo, como fazem os anjos no Céu” (P. 103).

A soberania de Deus (ele fará a sua vontade) e a responsabilidade humana (eu preciso orar sem cessar) caminham juntas. Ouvi, certa vez, uma ilustração sobre um puritano que precisava sair de sua casa no meio da floresta para ir à uma vila. Ele vestiu-se, pegou sua espingarda e quando saia sua esposa questionou: “Para que a arma?”, ouvindo como resposta que era para o caso de encontrar algum urso pelo caminho. A esposa, então, disse que a arma não seria necessária, pois se ele estivesse predestinado para morrer naquele dia, morreria, se não, chegaria ao destino. A resposta que ela ouviu do marido foi: “E se no caminho eu encontrar um urso predestinado para morrer hoje, como farei sem minha espingarda?”.

Não divorcie essas duas verdades! Desta forma, ao orar ao Deus soberano e providente, você não tentará mudar a sua vontade. Antes, em submissão, entenderá que ele fará exatamente o que já decretou na eternidade e que, providencialmente, decretou que ouviria orações que estivessem de acordo com essa vontade soberana.

Milton Jr.

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