quarta-feira, 29 de julho de 2015

Amando os filhos de fato e de verdade

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Não consigo ver como um pai ou uma mãe possam dizer que amam seus filhos se ao verem o pecado se manifestar na vida deles, nada fizeram para impedir seu progresso, ou não envidarem todos os esforços necessários para vê-los superar o pecado com a graça salvadora que há na fé em Cristo Jesus.

Certamente que muitas coisas boas desejamos para nossos filhos: que tenham um bom emprego, que sejam bons administradores dos bem a si confiados, que tenham uma boa educação, que sejam corteses e respeitosos, que no futuro eles passem adiante os bons valores que lhes passamos, que aprendam o valor do trabalho duro, que aprendam a lidar com responsabilidades, que seja honestos, bondosos, gentis e carinhosos. Todas boas coisas e bons costumes. Mas e quanto ao caráter? Alguns pais já se conformaram com o presente séculos, que com frequência lhes infunde no coração a noção não bíblica que o caráter é aquele algo imutável com o qual cada criança já nasce e nada poderá alterá-lo. Dito de forma simples, cada criança é quem é, e o tempo se encarregará de trazer à tona quem ela sempre foi. Na verdade, não há nada que os pais, a família ou mesmo a igreja possa fazer para alterar a substância interior da criança. Ela será quem está destinada a ser, em termos de caráter. O problema é que, embora haja uma dose de verdade nisso, não é toda verdade. De fato, não podemos, na qualidade de pais, família e igreja, fazer nada para alterar o que há nas profundezas do coração de quem quer que seja, nem mesmo de nossas amadas crianças. Entretanto, dos muitos gestos de amor que pais, familiares e irmãos de igreja possam oferecer para esta criança, nada há de maior, mais precioso ou mais profundo do que ensinar, compartilhar e experimentar juntos o amor e a redenção no sangue do cordeiro bendito, Cristo Jesus, o Senhor! Novamente, simplificando, quando o evangelho não permeia nossas conversas, atitudes e palavras, de fato não há evangelho no coração. Não podemos compartilhar o que não temos. Mas se temos, ou dizemos ter, precisamos fazê-lo brilhar em nossa vida, de modo a iluminar os que nos cercam. E quem haverá de estar por perto quando esta luz brilhar? Bom... A nossa criança, nossos filhos amados.

Haverá luta constante e árdua, de verdade, se procurarmos viver de modo coerente com a nossa fé. Mas nada há de mais rico do que legar aos filhos a fé que primeiro habitou em nossos pais, depois em nós e por fim vê-la germinar, crescer e florescer no coração de nossos filhos.

Portanto, quando vejo pais inertes, assistindo como expectadores impotentes o pecado crescer como uma erva daninha no coração e nas atitudes de seus filhos, apáticos ou com uma preocupação passiva que não impulsiona os pais à atitude, eu me vejo forçado a duvidar que tais indulgências pecaminosas possam se enquadrar em qualquer categoria que venha a ser classificada como "amor". "Eu amor meu filho" e "Eu não posso fazer nada em relação a isso" não cabem no mesmo coração, se nele houver amor cristão.

É importante esclarecer que, de fato e de verdade, os pais não podem fazer nada mesmo, se por fazer alguma coisa se entende mudar o coração da criança. Isto, só quem pode fazer é o Redentor. Contudo, muito há de ser feito por pais piedosos que desejam ver em seus filhos a imagem semelhante de Cristo esculpida na pedra do caráter deles. E como este é um processo de escultura, duas coisas temos que ter em mente: é trabalhoso e leva tempo!

O que se pode fazer, que demonstra amor:

1. Vamos começar com o básico: oração. De certo muitos pais param por aqui, contudo, há aqueles que nem aqui chegam. Orar pelos filhos não é aquela reza diária, desprovida de afetos do coração. Antes é o ofertar do seu próprio coração paterno a Deus, rogando por aquela criaturinha que lhe fora dada por herança, e a quem você diz amar diante de Deus, o verdadeiro dono delas. É uma grande responsabilidade velar por elas em oração, e ao fazê-lo, seremos despertados em nossos afetos. Ore não somente pela saúde de sua criança, ou pelo seu futuro financeiro ou emocional. Ore por suas dificuldades de caráter, por aquilo que tem sido alvo de disciplina. Peça a Deus que lhe dê a sabedoria necessária para ministrar a Escritura de modo amável, pessoal e profundo à sua criança. Peça que seu exemplo nesta e naquela área específica seja, de alguma forma, usada por Ele para ajudar a demonstrar à sua criança como se faz para superar o pecado, na prática. Agindo assim, você rapidamente perceberá que precisará separar mais tempo parar orar do que de costume.

2. Ensine formalmente. Sim, mas ensine mais que histórias. É fato que Deus, em bondade e graça nos deu histórias. Mas elas são excelentes ilustrações práticas de como se vivem os princípios. São os meios para se interiorizar a lição. Então, certifique-se de que não está fazendo das histórias um fim em si mesmo. Uma criança de cultura admirável certamente conhecerá as principais histórias do Velho e do Novo Testamento. Mas uma criança de fé admirável, saberá usá-las para ilustrar sua fé, suas razões e os princípios sobre os quais ela mesmo vive.

3. Ensine informalmente. Como disse a pouco, viver coerentemente com o evangelho que trazemos nos lábios é um grande desafio, mas é também a forma mais simples e eficaz de evitar que seus filhos desenvolvam no coração a ira, advertida em Efésios 6. Para ilustrar, uma história: Tenho o costume de sempre que podemos sentar juntos, eu e minha esposa, e, podendo, de dar as mãos. Acho que minhas filhas já notaram. Mas por mais que isso me cause imenso prazer, nem sempre estamos com o humor propício para isso, e um "bom dia" mais azedo, ou dificuldade qualquer ou um mero atraso para sair para a igreja já se faz perceber nos gestos mais sutis. Me lembro de uma ocasião em que alguns desses fatores apareceu e minha filha mais nova estava sentada entre nós. De alguma forma ela percebeu que ambos estávamos com as mãos sobre suas pernas, mas não estávamos com as mãos dadas. Ela pegou nossas mãos e colocou uma sobre a outra e simulou gestos carinhosos... Pegamos o embalo e continuamos dali. Espero que minhas filhas almejem serem amadas, acarinhadas e cuidadas, e a maneira como elas perceberão se assim estão sendo tratadas será quando virem que são tratadas como sua mãe o é. Aprendi vendo meu pai e minha mãe, e nosso exemplo, peço a Deus, lhes sirvam também. Você perceberá as dificuldades envolvidas nisso quando for ter com as crianças e lhes disser que a discussão que testemunharam não agradou ao Senhor, e agora os pais estão diante delas para lhes pedir perdão pelo mau testemunho. Contudo, isso fortalecerá nelas a consciência de que embora não tenham um casal de pais perfeitos, eles têm uma tri-unidade em Deus absolutamente perfeita, e redenção disponível para o pecador arrependido.

Se você pai ou mãe, vem sendo alertado quanto ao pecado na vida de seu filho, ou está consciente dele, mas nada vem fazendo para mudar o quadro, reaja! Faça alguma coisa! E se você já vem lutado e começa a sentir desesperança, então levante-se e busque ajude pastoral sábia. Busque a Deus enquanto se pode achar, Ele não fugirá de vós! Só não assista inerte à derrocada espiritual de seu filho, vendo-o por fim se perder. Ame, não de palavra, "nem de língua, mas de fato e de verdade" 1 Jo 3:18.

Jônatas Abdias

terça-feira, 21 de julho de 2015

Jó - exemplo de um homem temente a Deus

Há muitos anos, havia decidido ser guiado por intelectuais. Sim, eles mesmos. Tinha em mente que os intelectuais, especialmente aqueles mais dedicados a compreender a alma humana, poderiam solucionar alguns dilemas pessoais, ao mesmo tempo em que serviriam de bússola moral, ética e espiritual.

Homens como Jean-Jacques Rousseou ou Tolstoi, ou mesmo Nietzsche, por breve tempo ocuparam o centro de minhas faculdades, como agentes norteadores, para tentar entender e enfrentar os dilemas do meu tempo e do meu coração.

Tudo isso cedeu lugar quando o verdadeiro Rei dos reis me alcançou com a sua Palavra e então, pude sentir pela primeira vez aquela paz que excede todo o entendimento (Fp. 4.7) invadir meu coração. E, diante da luz bendita de Cristo, todos os outros luzeiros tornaram-se como nada diante de tão resplandecente luz. Os intelectuais que haviam influenciado minha conduta em algum grau, foram recolocados em seus respectivos lugares, ou seja, não mais ocupavam o primeiro lugar, afinal, qual luz poderia ser mais iluminadora e esclarecedora do que a luz bendita do Filho de Deus? Cristo é a verdadeira luz de Deus ao mundo.

No livro Os Intelectuais, de Paul Johnson, há uma acusação que faz todo o sentido. Os intelectuais se aventuraram na descrição da natureza humana e suas relações sem levar em consideração a existência de Deus. Deliberadamente excluíram Deus de qualquer observação, intento ou conclusão sobre o ser humano e suas relações. Ao retirarem Deus de qualquer análise da criação, colocaram-se no lugar dele, ditando regras de conduta e orientando a todos, agindo como profetas (falsos) para uma sociedade distante de Deus.

Tal influência apresentou distorções sobre o ser humano e sua conduta ou percepção de mundo. Afirmar que “o homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe” (uma das concepções mais enraizadas atualmente) demonstra não somente como a sociedade foi influenciada, mas, demonstra como os cristãos, como parte da sociedade, foram seduzidos pelos intelectuais e seus pensamentos equivocados sobre o ser humano e suas relações.

Há um caminho melhor a seguir. Este caminho melhor é observar e aplicar os ensinamentos da Palavra de Deus.

Um dos maravilhosos exemplos da Palavra de Deus pode ser encontrado no Livro de Jó, onde é possível observar qual é a conduta/pensamentos de um homem que teme a Deus.

Em primeiro lugar, aprendemos com o testemunho descrito no livro de Jó 1. 1, que o ambiente em que nos encontramos não deve ditar as regras de conduta para o homem que teme a Deus.

A descrição da narrativa informa que Jó habitava na terra de Uz, identificada com Edom (Lamentações 4:21 diz: "Regozija-te e alegra-te, ó filha de Edom, que habitas na terra de Uz).

Edom não era um centro de adoração ao Deus verdadeiro. Jó não estava rodeado de pessoas tementes a Deus. Ainda assim, a declaração sobre seu procedimento é esclarecedor: “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal.” Jó. 1.1.

Muitos homens estão apresentando desculpas para atitudes pecaminosas como destemperança, irritação e pensamentos iníquos, nas circunstâncias e não na inclinação pecaminosa do pecado encontrado no próprio coração. Tiago em sua carta esclarece que “cada um é tentado pela própria cobiça, quando esta o atrai e o seduz.” (Tiago 1.14). A Palavra de Deus nos informa, advertindo, que está no coração o desejo para fazer o que desagrada a Deus.

Jó é um homem reto e íntegro, e que se desviava do mal. Tenho visto muitos homens e mulheres se cercando de possibilidades de erro. Sim, as circunstâncias podem ser instrumentos de Satanás para tentar os homens, entretanto, Satanás não puxa ninguém pela orelha, Satanás não força a vontade dos homens, antes, seduz com promessas vazias e que afrontam os desígnios de Deus. O homem que teme a Deus, deve desviar-se do mal. E, o melhor caminho para desviar-se do mal é estar constantemente diante do Deus Altíssimo.

Desviar-se do mal é a consequência do desejo sincero em querer agradar e adorar a Deus em todas as áreas e em todas as circunstâncias da vida.

Em segundo lugar, aprendemos com o testemunho descrito no livro de Jó 1. 2 e 3, que os filhos e a riqueza não atrapalham a vida do homem que teme a Deus.

Muitos homens entenderam que criar filhos é responsabilidade da mulher. Por isso, vemos mais mulheres com seus filhos nas igrejas do que pais com seus filhos nas igrejas. Muitos homens abdicaram de instruir formalmente seus filhos. Chegam em casa depois de um longo e árduo dia de trabalho e o que desejam é um tempo para descansar. Para isso, a esposa deve promover um ambiente agradável para o descanso. É claro que, em casos específicos, onde o marido trabalha por escala e chega em casa depois de um longo tempo de trabalho sem sono, há a necessidade de algumas horas de descanso. Não me refiro a estes casos, mas sim, do trabalho habitual. Os homens da nossa geração devem ser orientados biblicamente a abraçar a causa da instrução espiritual dos filhos.

Outra impressão errada é que a riqueza atrapalha a vida espiritual. Se lermos atentamente o relato de Jó, veremos que a riqueza jamais tornou seu coração frio para com Deus.

O problema nunca foi a riqueza, mas dedicar o coração a ela. O problema não é a falta de riqueza, mas, o contentar-se com o que Deus já nos permitiu ter.

Em Mateus 6. 20 e 21 lemos: Mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde a traça nem a ferrugem podem destruir, e onde os ladrões não arrombam e roubam. Porque, onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração.

Somente uma ressalva. Devemos sim, expressar contentamento com o que Deus já nos deu. Porém, não é pecaminoso querer progredir na vida, ter uma colocação melhor de trabalho, galgar degraus e promoções. A grande questão sempre recairá sobre as reais motivações do coração.

Nosso coração deve inclinar-se para Deus e Jesus Cristo!

Em terceiro lugar, aprendemos pelo testemunho descrito no livro de Jó 1. 4 e 5, que o homem que teme a Deus, se preocupa, em particular, com a vida espiritual dos seus filhos.

Atualmente, boa parte da renda das famílias está dedicada para a educação dos filhos, pensando sempre num futuro melhor e mais seguro. Então, dedica-se boa parte do esforço familiar para dar aos filhos, uma boa educação e isso implica em: curso de línguas, atividades culturais, atividades esportivas, viagens para enriquecer a cultura, enfim, as famílias preocupam-se com o futuro acadêmico e profissional dos filhos. Tal preocupação é legítima. Porém, não tenho percebido tamanho empenho ou zelo, quando o assunto é o crescimento ou o preparo espiritual dos filhos.

Parece que a igreja está recebendo a carga de ter a obrigação de proporcionar aos filhos aquilo que os pais deveriam dar a eles, ou seja, uma verdadeira e continuada educação cristã.

Jó, novamente, é um exemplo neste aspecto. Ele se preocupava com a vida de comunhão entre seus filhos (vers. 4) tanto quanto se preocupa com a vida espiritual de cada um deles (vers. 5).

Investe-se tempo em preparar os filhos para o mercado de trabalho, mas, muito pouco esforço é encontrado no treinamento dos filhos para a piedade e para a adoração a Deus, servindo-o na igreja local.

Como pai, devo ter a dupla preocupação. Porém, preciso entender que, acima de tudo nesta vida, meus filhos precisam ter em mente que Deus ocupa sempre o primeiro lugar.

Jó foi um pai exemplar, pois, como um bom patriarca, dedicava tempo em oração e intercessão pelos filhos.

Os homens da nossa geração oram pouco, intercedem pouco, se preocupam pouco com a realidade atual da vida espiritual dos seus filhos. Verbalizam tal preocupação, mas não encontramos, efetivamente, tal preocupação traduzida em ações como encontramos na experiência de Jó.

Minha oração é que Deus desperte homens, biblicamente orientados, piedosos, santos, dedicados à família e ao reino de Deus, sendo exemplos para seus filhos, mostrando sempre qual caminho a seguir, andando sempre juntos, em direção a Jesus Cristo.

Soli deo gloria

Jean Carlos Serra Freitas

terça-feira, 14 de julho de 2015

Convicção, alegria e esperança

Ainda me recordo bem do dia em que conheci Marília (nome fictício, porém, história real). Ela veio à igreja numa quarta-feira, dia de estudo bíblico, e assentou-se mais atrás. Após o estudo perguntou se poderia conversar um pouco comigo e fomos até o gabinete pastoral.

Sua história era triste. Apesar de frequentar uma igreja evangélica durante bastante tempo, chegou completamente cética, triste e sem esperança. A razão? Marília havia sido diagnosticada com câncer há um tempo e iniciado o tratamento, mas o interrompeu por acreditar que havia sido curada. É claro que ela não chegou a essa convicção sozinha. Um dos pastores da igreja em que era membro havia orado por ela e declarado que o Senhor havia retirado a terrível doença. Com isso ela ficou muito alegre e grata a Deus e, pela fé, interrompeu a medicação.

O problema é que, após um tempo, os sintomas persistiam. Ela voltou então à sua médica que fez novos exames e a mostrou que a doença permanecia. Marília não podia acreditar. Como Deus poderia ter feito isso com ela? Essa situação fez com que ela começasse a questionar a existência de Deus e, sem esperança, vivia triste.

Essa história é mais comum do que se imagina. Diariamente muitas pessoas são levadas a acreditar, diferente do que a Bíblia ensina, que crentes nunca vão sofrer com as intempéries da vida. A “teologia” da prosperidade, também chamada de confissão positiva, ensina que aqueles que creem em Jesus terão prosperidade financeira e cura, bastando para isso ter fé. Marília havia aprendido isso e, agora, estava decepcionada com Deus, pois mesmo tendo fé não havia sido curada.

Quando alguém chega com essa convicção, a primeira coisa que deve ser feita é demonstrar que esse não é o Deus da Bíblia. Caminhamos então, em algumas sessões de aconselhamento, olhando para as Escrituras a fim de que ela compreendesse que o deus em que ela estava confiando não passava de um ídolo, ainda que tivesse sido apresentado como o Deus verdadeiro. Sim! O Senhor Jesus foi enfático: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.36). A crença em um Jesus diferente do que a Bíblia ensina, não passa de uma crença em um falso deus. Marília não poderia estar decepcionada com o Deus verdadeiro pelo simples fato de que, a despeito de a Bíblia relatar que o Senhor curou várias pessoas, não há uma promessa sequer de que isso se daria com todos os crentes (Lc 4.27; Gl 4.13; 1Tm 5.23; 2Tm 4.20).

Apesar de entender que Deus não era o responsável pelo falso anúncio de sua cura e que, de fato, estava crendo em Deus de forma errada, permanecia a tristeza e a falta de esperança. A doença estava ali, tomando pouco a pouco seus órgãos e não havia perspectiva de um “final feliz”, pelo menos por parte da medicina.

Um pequeno parêntese: Até mesmo cristãos que não creem na “teologia” da prosperidade acabam, muitas vezes, oferecendo falsa esperança em casos como esse, limitando-se, ao aconselhar ou visitar o enfermo, a dizer “vai dar tudo certo”. Aos ouvidos do enfermo isso geralmente soa como: “Você vai sair dessa”, o que não é sempre verdadeiro.

É claro que crentes conservadores continuam crendo que Deus pode curar (ou pelo menos deveriam crer), mas é preciso lidar de forma bíblica com a realidade da morte, pois esse é, em muitos casos, o caminho natural.

No caso de Marília essa era uma realidade. Como, então, cultivar esperança em um coração aflito pela realidade da morte? Foi preciso olhar novamente para as Escrituras e aprender que o Senhor, o nosso Pastor, não prometeu nos livrar do vale da sombra da morte, mas que estaria conosco ali (Sl 23.4). O Senhor Jesus reafirmou a realidade de sua presença quando disse que estaria conosco todos os dias, até a consumação dos séculos (Mt 28.20). Vimos também como o apóstolo Paulo ansiava em estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor (Fl 1.23).

Olhamos ainda para 1Tessalonicenses 4.13-18. Que texto maravilhoso! Paulo começa falando que não podemos ser ignorantes (sem conhecimento) com respeito aos mortos, exatamente para não nos entristecermos como os demais, que não têm esperança. E, após isso, Paulo não diz que eles não morreriam, mas que da mesma forma que o Senhor ressuscitou, aqueles que creem também ressuscitarão no último dia. A morte não é o destino final. Ou seja, as palavras de consolo de uns aos outros, ordenadas pelo apóstolo, não são: “Deus vai nos livrar da morte”, mas “ressuscitaremos com Cristo e viveremos para sempre com ele”.

Foram alguns encontros que tivemos, estudando a respeito da esperança bíblica. A cada encontro, Marília estava mais debilitada. Seu corpo já cheirava mal, corroído pela terrível doença, mas a cada visita que eu fazia para estudar a Palavra, ao chegar, a encontrava cantando louvores a Deus e com um sorriso no rosto! A tristeza que havia em seu coração foi substituída pela alegria de pertencer a Cristo e de estar segura nele.

O último texto que estudei com ela foi o da segunda epístola a Timóteo 4.7-8: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2Tm 4.7-8). Confesso que ao abrir a Bíblia para ler, estava temeroso pela reação de Marília, contudo, o que ouvi ao final do texto foi: “eu creio nisso, pastor”.

Quando Marília faleceu eu estava viajando e não pude ir ao seu sepultamento, mas antes disso ela já havia se tornado membro da igreja e estava convicta, alegre e cheia de esperança, apesar das circunstâncias, pois aprendeu que “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19).

Louvo a Deus por me ter feito conhecer a Marília e, mesmo imperfeito que sou, ter sido usado como instrumento de edificação em sua vida. Agradeço também por meu crescimento, pois a cada visita que fazia eu saia de sua casa ainda mais convicto a respeito da benevolência do Salvador, da certeza de que ele certamente completa a boa obra que começa em seus filhos, aperfeiçoando-os a cada dia, da autoridade e da suficiência das Escrituras, que são a única fonte para o conhecimento completo de Cristo, que nos doa tudo aquilo que é suficiente para a vida e para a piedade (2Pe 1.3).

Oro para que o Senhor abençoe a cada um de nós, que fazemos parte do seu povo, mantendo-nos também convictos, alegres e esperançosos, sabendo que um dia estaremos todos juntos com o Senhor que “enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.4).

Milton Jr.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Por que eu deveria preferir o aconselhamento bíblico a outras alternativas? – Parte 1

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No que diz respeito ao aconselhamento cristão, tivemos um renascimento no século passado. Seu protagonista principal foi o pastor norte-americano Jay Edward Adams. Como todos antes dele, o início de seu ministério foi uma busca pelas técnicas e entendimentos que a ciência do comportamento providenciava. Depois de muitos anos em busca delas, havia chegado a hora dele dar algumas respostas, e isto aconteceu quando o dr. Adams foi convidado para lecionar no Seminário de Westminster. Adams desafiou-se a si mesmo em busca de respostas que viessem das Escrituras Sagradas. Como pastor, dominicalmente ele subia ao púlpito para pregar, e com isso, publicamente ensinava o que o povo de Deus deveria crer e como deveriam reagir aos estímulos da vida; e entendeu que aquelas respostas pastorais poderiam ser sistematizadas no aconselhamento particular. Seu livro "Conselheiro Capaz" reuniu suas primeiras descobertas sobre o tema, e trouxe muita movimentação para um campo que aparentemente viva certa paz. O tempo e o desenvolvimento do que ficou conhecido como "aconselhamento Noutético" provou que aquela paz revelava-se tanto enganosa quanto negligente. Os pastores haviam deixado de oferecer respostas bíblicas à igreja e às pessoas em geral, deixando que estas fossem dadas por "pastores seculares de almas".

Essa expressão foi cunhada por Sigmund Freud. Ele cria que a psicanálise seria o instrumento de correção dos instintos naturais abrigados no homem, que o conduziria à uma vida mais civilizada e possível. Felicidade não era bem um alvo, visto que em muitos casos, o que Freud cria ser um objetivo possível era tão somente "baixar" a níveis suportáveis a dor, a ansiedade e as neuroses. O efeito de suas publicações e suas ideias aparentemente geniais foram aceitas quase que generalizadamente, e o uso praticamente incorporado no cotidiano de um vocabulário eivado de "psicologismos", seria o resultado quase um século depois.

Com o renascimento do interesse em aconselhamento bíblico, a discussão agora considerava o que era visto como um "avanço" do entendimento do homem e seus problemas, realizado pela psicologia.

Diferente da psicanálise, mas influenciada por ela, a psicologia se propunha ser uma ciência que entendia dos mecanismos da mente humana. Seu primeiro desafio foi provar-se uma ciência, pois tanto seus métodos como seus resultados não podiam ser verificados ou reproduzidos em laboratório, ou confirmados por leis naturais, sendo dependente da experiência comum da interação social e sua identificação subjetiva. A insistência parece ter ajudado no salto que a firmou como a ciência do estudo do ser humano, que não só o entendia, mas propunha soluções. Se tivesse permanecido em seu campo observacional, até que poderíamos derivar de suas observações algum benefício, mas alguns problemas se colocam no caminho:

1. Quando se trata da psicologia secular, estamos falando de observadores afetados pelo pecado, observando pecadores afetados pelo pecado.

2. Também estamos falando de conclusões que são profundamente influenciadas pela disposição do coração na análise do resultado final.

3. Não há qualquer consideração metafísica ou espiritual que corrija os rumos das conclusões, porque cada escola de psicologia se firma em bases distintas e cosmovisões conflitantes.

Não precisamos descartar por completo as observações da psicologia, como não descartamos por completo as observação do mundo natural que foram feitas por engenheiros, físicos, linguistas ou químicos que não temiam a Deus. Mas há que se fazer uma diferenciação importante: ao longo da história da ciência, houve muito mais cientistas tementes a Deus, cujo objetivo era entender o que tinham diante de si, de tal sorte que o resultado fosse um conhecimento mais profundo do Criador e como sua sabedoria se manifestava. A psicologia nasce num abismo gerado pela ausência de respostas pastorais, cujo interesse não só era providenciar entendimento, mas oferecer uma alternativa ao trabalho do "ministro religioso".

De qualquer forma, as observações da psicologia ajudam se resguardamos a "soberania da fé cristã revelada na Escritura como o elemento crítico da sua validade" (Gomes, 2004, pag.9). Como isso se dá, e como é possível, veremos noutro post.

Por hora, é importante enfatizar que quando saímos em busca de ajuda para o tratamento dos problemas que afetam nossa alma, nossos relacionamentos, e nossa visão de mundo, é importante considerar o que foi disposto acima com cuidado. Permita-me ilustrar: Eu tenho miopia, mas me incomodo com usar óculos. Prefiro lentes, não só pelo resultado estético, mas por uma série de confortos que considero bons. Mas até o uso de lentes, com o tempo, tende a "cansar a beleza". Resolvi buscar alternativas, como uma cirurgia de correção. Já no oftalmologista, conversávamos sobre a cirurgia, seus efeitos e riscos. Eu estava para ser convencido quando me dei conta de que o oftalmologistas usava um óculos. Minha pergunta parecia obvia: "Se a cirurgia é tão boa e tão segura, por que é que o senhor não a fez?" Ao que respondeu: "Não confio nos oftalmologistas, e como os conheço bem, não os deixaria tocar nos meus olhos". Sabe o que aconteceu comigo? Continuo usando meus bons e velhos óculos.

Às vezes, o que parece ser uma alternativa interessante, viável e até melhor, pode ser no fim, um grande perigo. Eu ainda pretendo fazer a cirurgia, mas ainda não encontrei alguém em quem confiar, para pôr as mãos nos meus olhos. Se alguém se propõe trata minha alma, o cuidado é redobrado.

Jônatas Abdias

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