quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Mas, e se...? Comigo deu certo!

não falo não vejo não ouço

A despeito do claro ensino das Escrituras quanto a proibição do casamento entre crentes e incrédulos (Gn 6.1-3; Ex 34.12-17; Ne 13.23-27; 1Co 7.39), sempre haverá quem argumente da forma como está no título, seja para justificar a escolha de um não crente para o matrimônio – “Mas, e se a parte incrédula for um eleito de Deus e vier a se converter depois? Nunca se sabe, né?” – ou para demonstrar que Deus aprovou a união – “Meu cônjuge se converteu depois de uns anos, comigo deu certo!”.

É preciso considerar essas questões e respondê-las. São procedentes? Cristãos podem se apegar a elas e “arriscar” o relacionamento misto?

Comecemos com o “e se?”. Alguns têm argumentado, a partir da história de Rute, que Deus pode salvar o cônjuge incrédulo. Só para lembrarmos, Rute era a moabita que se casou com um dos filhos da viúva Noemi e cuja bela profissão de fé é usada, inclusive, como versículo de convite de casamento: “Aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus.” (Rt 1.16).

Aqui já temos algumas questões a se considerar. Tudo começa ao se retirar o versículo do seu contexto. A bela afirmação foi feita para a sogra e não para o esposo que, a essa altura, já tinha morrido. Ele sequer viu a conversão acontecer e, há teólogos que até entendem que a razão da morte foi exatamente a desobediência em tomar uma esposa descrente. A segunda questão é que essa não é toda a história. Noemi tinha dois filhos e ambos tomaram esposas moabitas. Após a morte dos dois, Noemi despediu as noras e, ainda que Rute tenha ficado com a sogra, Orfa, que nunca é citada por razões óbvias, voltou para os seus deuses (Rt 1.11-15). O que vemos, portanto, é que o “e se” vale também para a hipótese da não conversão do cônjuge que é o que mais acontece, podendo ser constatado empiricamente.

Entretanto, desconsiderarei essa segunda hipótese, para continuarmos a pensar. Será que se em todos os casamentos mistos acontecesse a conversão da parte incrédula (deu certo!), isso poderia ser tomado como sinal da aprovação de Deus? Deixe-me tentar ilustrar isso com uma história conhecida.

Certa vez o rei Davi, em vez de ir para a batalha com seus soldados, resolveu ficar em seu palácio. Numa tarde, passeando pelo terraço, viu na vizinhança uma mulher muito bonita e se encantou com ela. Mandou perguntar, então, quem era e foi avisado de que era ela a mulher de Urias, um de seus soldados. Ele então pensou: “Eu sei que adultério é pecado, mas, quem sabe não seja propósito de Deus usar um filho que terei com ela para ser o ascendente do Messias?” e, assim, mandou chamar a mulher de Urias e a possuiu.

Antes que você pense que eu endoidei, afirmo que sei exatamente que não foi assim que aconteceu. Apesar de não ter nenhuma dúvida de que era mesmo propósito de Deus que um dos filhos de Davi com Bate-Seba entrasse na linhagem do Messias (perceba que ao registrar a linhagem de Jesus Mateus faz questão de frisar: “Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi, a Salomão, da que fora mulher de Urias” – Mt 1.6), a razão de Davi ter pecado tomando a esposa do seu próximo, conforme o ensino da Escritura, foi a sua própria cobiça que o atraiu e o seduziu (cf Tg 1.14,15).

Para que não passe pela sua cabeça que isso faz de Davi um inocente, preciso dizer que o fato de estar no plano de Deus que Salomão estivesse na linhagem do Messias não torna o pecado de Davi “menos pecado”, apenas demonstra a ação soberana de um Deus que governa a história e que usa, inclusive, os atos maus dos homens para realizar a sua vontade soberana.

Se você é um leitor atento da Bíblia vai lembrar que era plano de Deus fazer José governador do Egito (Gn 45.8; 50.20,21), mas que foi pecaminosa a atitude dos seus irmãos que, por inveja, o venderam como escravo para o Egito e mentiram a seu pai afirmando que ele havia morrido (Gn 37.4-36). Você deve se lembrar também que foi o próprio Deus que enviou a Assíria para punir o seu povo que estava longe dos seus caminhos usando a maldade do seu governante, mas após cumprir o que desejava castigou “a arrogância do coração do rei da Assíria e a desmedida altivez dos seus olhos” (Is 10.5-15).

Vários exemplos do Senhor usando o pecado dos homens para cumprir seus propósitos poderiam ser citados, mas mencionarei apenas mais um. Era plano de Deus enviar seu Filho ao mundo para morrer em lugar do seu povo, recebendo sobre si a ira do Pai, mas a culpa da morte do Senhor recaiu sobre os homens, como afirmou Pedro em seu sermão: “sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos;” (At 2.23).

Os fatos narrados, portanto, ainda que demonstrem que “deu certo!”, não tornam legítimas as escolhas erradas e pecaminosas que são feitas segundo a nossa cobiça, mas reafirmam a verdade bíblica de um Deus Soberano que dirige a história e cumpre seus planos sempre.

Casamentos mistos sempre serão uma desobediência a Deus, ainda que haja conversão da parte incrédula após o casamento (nesses casos percebemos a misericórdia, apesar do pecado). Mas a essa altura alguns podem questionar: “O que fazer, então, se eu amo alguém que é incrédulo? Não vale a pena arriscar? Ele(a) é uma pessoa tão boa...”.

Minha resposta é simples. Fique amigo dele(a) e sempre que tiver oportunidade evangelize-o(a). Ofereça-se para discipulá-lo(a), convide-o(a) para ir aos cultos e, se um dia ele(a) se converter, case-se. É claro que isso pode demorar dias, meses, anos ou nunca vir a acontecer, mas se você, de fato, o(a) ama tanto como afirma estará dando a maior prova de amor ao se esforçar para apresentar a ele(a) o evangelho redentor. Seu amor resiste ao tempo?

Por fim, mas não menos importante, negando a sua própria vontade (Mt 16.24), você demonstrará que ama em primeiro lugar ao Senhor e que, por amor a ele, irá se submeter à ordem para que não haja casamentos mistos.

Milton Jr

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Nós podemos fazer melhor que isso: falando a verdade em amor na era da internet

Discussao-pela-Internet
"Alguém há cuja tagarelice é como pedras de espada, mas a língua dos sábios é medicina"
Ponderava sobre o assunto quando providencialmente me deparei com este artigo interessantíssimo de Heath Lambert. Ele é o diretor executivo da ACBC (Associations of Certified Biblical Counselors - antiga NANC) e professor associado de Aconselhamento Bíblico no Southern Seminary e Boyce College, além de autor de livros e artigos.
Esta não é exatamente uma tradução do artigo originalmente publicado em inglês por Lambert. Mas basicamente a interação com o artigo. Adianto que algumas particularidades serão omitidas, por conta da distância cultural, mas ao final o link para o artigo original lhe permitirá saber mais se desejar.
Mais calor do que luz
O autor está desabafando sobre deu desapontamento com David Murray, que postou críticas em seu site sobre seus artigos a respeito de doença mental. Ele e outros que leram as palavras de Murray acharam seus comentários exageradamente rudes, fazendo uma desonesta caricatura de sua posição a respeito do assunto. Em dias de internet onde qualquer um pode ter um blog e escrever sobre o que bem entender, situações como estas são facilmente experimentáveis em quase todas as interações sociais possíveis, principalmente após o advento das redes sociais, que ainda tornam a dinâmica das informações mais intensa.
Lambert classificou o resultado da crítica de Murray como uma espécie de coquetel Molotov: Muito quente, com muitos danos, mas com luz de pouca duração. De fato, algumas discussões pela internet parecem uma boa ideia no começo. Mas por algum motivo, elas tendem a muito rapidamente se deteriorarem em criticismo ácido e atrito, dando espaço para que as emoções esquentem, mas pouca luz seja lançada sobre o assunto. Lambert lamenta que, se ele ao menos tivesse esperado para que as postagens chegassem ao final, não haveria razão para o ataque. Ele diz: "Por mais verdade que seja, não desejo um vai-e-vem com David na internet. Já fizemos isso antes, e não achei útil. Aqui eu desejo me endereçar a um assunto mais amplo. Este assunto diz respeito a Como crentes devem discordar uns com os outros na era dos blogs e Tweets da internet." Então, se não ficou claro até aqui, que esta citação elucide com razoável clareza meu interesse no artigo que passo a traduzir:

1. Ouça primeiro, Blog depois
"Todo homem, pois, seja pronta para ouvir, tardio para falar..." (Tiago 1.19)
Jesus ama relacionamentos mais do que brigas. Desentendimentos podem levar a mais acessos em um blog, mas Jesus deseja coisas melhores para seu povo. Há tempo e lugar para respostas públicas a declarações públicas. Uma forte e audível crítica é frequentemente apropriada. Mas onde nós aprendemos que um espasmo de publicidade deve preceder o ouvir a questão toda?
Isto não diz respeito a Mateus 18. D. A. Carson escreveu esclarecedoramente sobre a inaplicabilidade desta passagem a discursos públicos... Para mim, a questão gira em torno de como nós amamos uns aos outros melhor.
De fato, um inexplicável temor de pessoas nos acomete quando, podendo usufruir de outros mecanismos, como uma chamada telefônica, ou um contato pessoal, preferimos blogar publicamente sobre assuntos e dúvidas que bem poderiam ser pacificamente resolvidos em interações menos públicas.
Precisamos de convicção e cuidado aqui. Precisamos de convicção para responder ao erro. E precisamos de cuidado para nos assegurar de que percebemos o erro real. Isto requere boa vontade no ouvir. Quando você discorda de alguém que você conhece, vale à pena todo o esforço em ouvi-lo antes de atacá-lo publicamente.
2.  Diga a verdade a respeito do seu irmão

Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos. (Col 3.9)
Se desejamos ter integridade em seus desacordos, precisamos dizer a verdade sobre a posição de nosso irmão. Isto normalmente significa reafirmar sua posição em termos que ele reconheça ser justa.
O que não é incomum encontrar é uma caricatura de nossos pensamentos refletidos em críticas que não se justificariam caso o opositor conhece, ou ouvisse com atenção, qual é a nossa verdadeira posição.
Você não precisa inventar uma coisa totalmente inédita para dizer uma mentira. Meias-verdades são tão enganosas quando fabricações completas. Ambas, declarações equivocadas e desonestidade flagrante desabilitam a causa da verdade.
Construir argumentos quixotescos contra posicionamentos que, na verdade, não são sustentados por quem discordamos, não contribuem para que a verdade avance sobre a terra. E como poderiam?
3. Presuma o melhor a respeito do seu irmão; não pule para conclusões
O amor "tudo crê" (1 Co 13.7)
E um ato de cuidado de amor presumir coisas boas sobre seu irmão até haver evidências para crer no contrário. Isto significa que deveríamos ler e ouvir as pessoas caridosamente e estender uma suposição de bons motivos a eles tanto quanto pudermos. No Reino de Cristo relacionamentos são muito importantes para se pensar o pior das pessoas.
Por vezes, se assume que as piores respostas serão dadas às nossa perguntas. Quão frequente, porém, ficamos surpreendidos quando ouvimos as respostas reais, não?

Uma outra forma de colocar isso é dizer que devemos tratar os outros com a mesma caridade com que desejamos ser tratados (Mt 7.12).
Falando a verdade em amor
Ainda oro para que todos nós, cristãos da era digital, aprendamos que a mensagem bíblica primeiramente escrita em pergaminhos com canetas tinteiros tenha relevância para nós sobre aquilo que escrevemos uns sobre os outros em nossos blogs. Paulo nos informa que "seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo" (Ef. 4.15).
Não devemos desmerecer os intentos, ainda que desajeitados, daqueles que desejam ver o reino de Deus e sua verdade avançar em cada área da vida, e ver o senhorio de Cristo de manifestar em cada pensamento, atitude, bem como em cada palavra e texto. Mas nem por isso devemos, igualmente, achar injustas justificativas para a maneira desnecessariamente bélica e não amorosa com que cristãos venham a se tratar pelos blogs espalhados pela internet.
A Palavra de Deus nos diz que o único modo pelo qual mostramos maturidade é falando conteúdo verdadeiro de maneira amorosa.
Traduzido por: Jônatas Abdias de Macedo
Comentários: Jônatas Abdias de Macedo
Artigo original: www.biblicalcounseling.com/blog/we-can-do-better-than-this-speaking-truth-in-love-in-an-internet-age

Pesquisar este blog

Pesquisar por assunto

Aconselhamento Bíblico (24) Adultério (1) Aflição (2) Agradar a Deus (3) Alegria (5) Amor (2) Amor ao próximo (1) Anarquia (1) Ano Novo (2) Ansiedade (1) Antropologia (1) Argumentação (7) Arrependimento (6) Auto-estima (2) Auto-exame (1) Auto-justiça (4) Autoridade (1) Casais (2) Casamento misto (1) Compaixão (3) Comportamento (13) Comunhão (2) Comunicação (5) Confiança (6) Conflitos (2) Confrontação (2) Conhecimento de Deus (3) Consolo (4) Contentamento (3) Convencimento (6) Coração (5) Coração de pedra (1) Cosmovisão (8) Criação de filhos (6) Cuidado da alma (5) Cuidados do conselheiro (2) Culpa (3) Dependência de Deus (1) Depravação total (1) Depressão (1) Desejos do coração (7) Deus conosco (1) Direitos (1) Dor (2) Edificação do irmão (1) Egoísmo (4) Emoções (7) Encorajamento (9) Engano (4) Escolhas (2) Esperança (3) Estudo (1) família (2) Farisaísmo (2) Fariseu (3) (3) Filosofia (1) Fundamentos (14) Glória de Deus (5) Guerra (3) Idolatria (10) Ídolos do coração (3) Imagem de Deus (1) Instrução (4) Intentos do coração (1) intimidade com Deus (1) Inversão de valores (2) Ira (2) Jean Carlos (12) Jean Carlos Serra Freitas (10) Jônatas Abdias (27) Justiça de Deus (1) Justiça própria (3) Justificação (1) Legalismo (2) Liberdade cristã (2) luta por poder (1) Más lembranças (3) meios de graça (1) Mentira (2) mil (1) milt (1) Milton Jr. (57) Monismo (1) Motivação (12) Motivações (4) Obediência (1) Objetivos (1) Oração (1) Orgulho (2) Paciência (2) Palavra de Deus (9) Passado (3) Paz (5) pecado (3) Perdão (6) Piedade (4) Plano de Deus (3) Planos (1) Prática da Palavra (17) Prática do aconselhamento (6) Presença de Deus (2) Pressupostos Teológicos (18) Psicologia (4) Psiquiatria (1) Racionalização (1) Redenção (7) Relacionamentos (7) remédios psiquiátricos (1) Remorso (2) sabedoria (5) Salvação (1) Santificação (2) Soberania de Deus (6) Sofrimento (6) Suficiência das Escrituras (22) Tarefas (2) Temor de homens (2) Temor do Senhor (1) teoria (1) Tesouros (1) tristeza (5) Unidade (1) Verdade (4) Vida cristã (24) Vontade de Deus (3)