terça-feira, 14 de junho de 2011

Depressão nos personagens bíblicos?

tumblr_lm1kc69SuG1qkecqxo1_500A Bíblia é (ou deveria ser) a regra de fé e prática dos cristãos. Teoricamente isso significa que as Escrituras, corretamente interpretadas, devem ser o crivo para o cristão interagir com todas as cosmovisões ao seu redor, avaliando-as e julgando-as a fim de reter o que é bom (1Ts 5.21). Teria de ser desta forma, pois o salmista afirma ser a Palavra a lâmpada para nossos pés e a luz para o nosso caminho (Sl 119) e o Senhor Jesus afirma ser ela “A verdade” (Jo 17.17).

 

Porém, para muitos crentes, na prática a teoria é outra. Inundados pelo modo de pensar deste século, crentes sinceros têm se descuidado e feito justamente o contrário, interpretado a Bíblia com pressupostos seculares.

 

Dia desses deparei-me com um texto assim. Nele, o autor se propõe a tratar de depressão e espiritualidade. Ele começa falando da depressão, principalmente da mulher, sob uma perspectiva médica, afirmando ser um conjunto de sintomas que merecem atenção profissional, médica e psicológica. Segundo o texto:

 

A depressão feminina está ligada a causas biológicas (puberdade, ciclo menstrual, gravidez ou infertilidade, pós-parto e menopausa), causas culturais (papel da mulher, status social, abuso sexual) e causas psicológicas (estresse, reação às perdas e aos conflitos, discriminação).[1]

 

O autor explica ainda que a depressão é classificada tradicionalmente em endógena e exógena, sendo a primeira originada por causas internas (biológicas ou predisposições hereditárias) e a segunda causada por fatores externos, como se fosse uma reação a fatores ambientais e circunstanciais (desemprego, divórcio, etc.).

 

O tratamento, segundo ele, deve seguir dois procedimentos, a avaliação e diagnóstico por um profissional médico e a escolha do tratamento adequado, sendo tratamentos eficazes o medicamentoso e a psicoterapia.

 

Assumidos os pressupostos, parte-se então em uma busca para provar a depressão biblicamente e, de acordo com os sintomas da depressão descritos no texto, chega-se à conclusão de que Jó, Moisés, Jonas, Davi e, surpreendentemente, o próprio Senhor Jesus passaram por depressão. A evidência seria eles terem pedido para morrer ou, no caso de Davi, ter os ossos e o humor afetados pela depressão. Para o articulista esses exemplos provam o realismo bíblico da depressão demonstrando que a fé não livra o homem de problemas mentais, mas também trazem esperança. Citando Hebreus 2.18 e 4.15 ele afirma que Jesus pode compadecer-se de quem enfrenta depressão por ter ele mesmo sofrido com isso.

 

Por fim o autor afirma que muitos substituem o tratamento médico pelo religioso por causa de preconceito, por falta de informação ou em nome de uma grande fé e lembra ser a medicina uma bênção do Senhor e os remédios, meios divinos para nossa cura, pois Deus cura extraordinariamente por meio de um milagre, mas ordinariamente cura pessoas por meio de um tratamento médico.

 

Verificando as implicações

        

Se assumirmos como corretas as interpretações dos textos bíblicos e as afirmações feitas pelo autor, temos sérias implicações:

 

1.    Certos tipos de emoções e comportamentos (desânimo, tristeza “desproporcional às circunstâncias, aumento ou diminuição do apetite, pensamentos, planos ou tentativa de suicídio, etc.”), devem ser encarados como patológicos;

2.    Tivessem os personagens bíblicos citados, incluindo o nosso Senhor, a bênção de viver num tempo em que já existe o Rivotril, a sua “doença” poderia ter sido curada por Deus de modo “ordinário”. Falar da profunda tristeza de Jesus como se fosse desejo de morrer é dizer o que o texto não diz, como ficará claro mais à frente;

3.    Conselheiros bíblicos não estão aptos a aconselhar pessoas com depressão, devendo esse trabalho ser feito sempre por profissionais psicoterapeutas;

4.    A “conversa psicoterapêutica” é mais eficaz que a “conversa bíblica”;

5.    Discordar da perspectiva do articulista sobre a depressão é ser mal informado, preconceituoso e, praticamente, um adepto da confissão positiva.

 

Para provar ser a depressão uma doença que deve ser tratada de forma medicamentosa, o autor recorre a exemplos bíblicos que “demonstram” a sua realidade. A ironia está no fato de que nenhum dos “depressivos bíblicos” foi tratado com remédio, por razões óbvias.

 

Testando biblicamente – textos nos seus contextos

        

Como afirmado no início deste artigo, a Bíblia corretamente interpretada é o parâmetro para julgar todas as outras coisas, e não o contrário. É preciso, então, verificar os textos em seus devidos contextos a fim de afirmar o que estava acontecendo com cada personagem diagnosticado com depressão.

 

Antes, porém, de nos atermos aos textos, é preciso estabelecer novos pressupostos:

1.    A Bíblia ensina que somos governados por nosso coração e o que governa o nosso coração governará a nossa vida (Mt 6.21; Mt 15.19; Sl 141.4);

2.    A forma como respondemos às pessoas e circunstâncias dependerá, portanto, daquilo que está governando o nosso coração. Como exemplo, lembremos a negação de Pedro. A despeito de saber o que era o certo a se fazer, acabou por negar o Senhor com medo de morrer;

3.    Nossas ações e emoções são fruto da nossa interpretação da realidade. Ainda pensando em Pedro, ele interpretou que os homens eram maiores que o Senhor e que não estaria seguro falando a verdade, ainda que já tivesse ouvido do próprio Jesus que até os cabelos de sua cabeça estavam contados e que, por isso, não precisaria temer os que matam o corpo (Mt 10.16-33).

 

Assumidos os novos pressupostos, vejamos os textos:

 

A “depressão” de Jó

 

Jó é descrito no começo do seu livro como um homem íntegro, reto e que se desviava do mal. O Senhor chega a afirmar a Satanás que não havia na terra homem semelhante a ele (Jó 1.8). Depois que Satanás acusa Jó de servir a Deus somente por ser alvo de suas bênçãos, é permitido que o tentador tire tudo dele. A partir daí a história se desenvolve de forma maravilhosa.

 

No princípio, Jó faz uma afirmação de fé formidável. Após sua esposa mandá-lo amaldiçoar a Deus e morrer ele diz: “Temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (2.10).

 

Porém, a partir do capítulo 3 Jó parece interpretar os fatos de outra forma. Sendo ele justo, não poderia estar sofrendo daquela forma, antes tivesse morrido na madre. Isso pode ser confirmado em todo o capítulo 31, no qual Jó fala de suas qualidades ao responder aos seus amigos chegando, por fim, a dizer: “Tomara eu tivesse quem me ouvisse! Eis aqui minha defesa assinada! Que o Todo-Poderoso me responda.” No primeiro versículo do capítulo 32 temos: “Cessaram aqueles três homens de responder a Jó no tocante ao se ter ele por justo aos seus próprios olhos.”

 

A partir do capítulo 38 Deus, em vez de responder a Jó, lhe faz uma série de perguntas que revelavam seu poder e sua soberania. Ao final, diz o Senhor: “Acaso, quem usa de censuras contenderá com o Todo-Poderoso? Quem assim argui a Deus que responda” (40.2).

 

O resultado é maravilhoso. Jó afirma: “Sou indigno; que te responderia eu? Ponho a mão na minha boca. Uma vez falei e não replicarei, aliás, duas vezes, porém não prosseguirei.” Jó reconhece que a realidade era diferente daquela que ele interpretava, mas Deus continua com mais uma série de perguntas que apontavam para a sua sabedoria. Ao final Jó confessa que nenhum dos planos de Deus pode ser frustrado e afirma que o conhecia apenas de ouvir, mas que agora que o via se abominava e se arrependia (42.1-6).

 

A “depressão” de Jó foi causada por uma falsa interpretação da realidade e o tratamento de Deus foi fazê-lo ver com clareza que as coisas não eram como ele entendia. O Senhor confrontou Jó, com sua Palavra, e restaurou-o.

 

A “depressão” de Moisés

 

O caso de Moisés é interessante. Desde o começo de seu chamado ele se mostra bastante relutante e, vez por outra, esquecia a promessa feita por Deus ao comissioná-lo: “Eu serei contigo” (Êx 3.12). No episódio em que pediu ao Senhor que o matasse, estava mais uma vez murmurando, pois o povo continuamente reclamava por não ter carne (Nm 11.4). Ele estava achando ser muito pesado o seu encargo e que faria as coisas por sua própria força (Nm 11.14).

 

A primeira coisa que o Senhor faz é distribuir o trabalho com 70 anciãos e, com menos trabalho, a murmuração de Moisés terminaria, certo? Errado! Deus afirmou que alimentaria o povo e daria tanta carne em um mês inteiro a ponto de sair pelo nariz e o povo se enfastiar dela. Moisés entendeu que novamente seria muito trabalho para ele e reclamou, insinuando ser impossível para ele prover carne para o povo o mês inteiro (Nm 11.22).

 

Deus trata Moisés confrontando-o: “Ter-se-ia encurtado a mão do Senhor?” (Nm 11.23). Em outras palavras, Deus estava dizendo a Moisés que não precisaria reclamar e se preocupar, pois ele era o provedor.

 

Mais uma vez o desejo de morrer foi por não confiar no Senhor e o tratamento foi o confronto com as promessas de Deus e a interpretação da realidade pela perspectiva correta.

 

A “depressão” de Jonas

 

Jonas é visto no texto como um doente que sofria de grave melancolia ou distimia crônica. Uma leitura rápida do livro já revela a razão de ele pedir a morte. Jonas é chamado por Deus para pregar aos ninivitas, povo poderoso, inimigo de Israel. A primeira coisa que o profeta faz é fugir, ele não queria ver os ninivitas convertidos. Depois do episódio em que é lançado no mar e engolido por um peixe, Jonas acaba parando em Nínive onde prega o sermão mais duro que se poderia pregar e, para sua surpresa, o povo crê em Deus.

 

O capítulo 4 começa afirmando que, por causa disso, Jonas desgostou-se e irou-se. O texto é claro, o profeta diz que fugiu porque sabia que Deus era misericordioso e, agora, com os ninivitas convertidos, era melhor morrer que viver. Jonas revela um coração egoísta, que não confia nos propósitos de Deus. Ele queria fazer melhor que o Senhor, mas já que isso não foi possível melhor seria a morte.

 

Deus trata o profeta confrontando o seu egoísmo e demonstrando que da mesma forma que tinha compaixão de uma árvore o Senhor também tinha dos ninivitas. O Senhor estava mostrando a Jonas que a maneira de ele interpretar as circunstâncias estava equivocada.

 

A “depressão” de Davi

 

A depressão de Davi é “constatada” não pelo fato de ele ter pedido a morte, mas dos seus ossos e humor terem sofrido seus efeitos. A questão é que esse sofrimento, visto como consequência da doença, era o tratamento de Deus ao rei, que não estava arrependido. Considerando estar Davi doente, a contextualização do Salmo deveria ser: “Enquanto não tomei rivotril, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos noite e dia.”

 

Porém, como pode ser visto em Hebreus, a disciplina de Deus sobre os seus filhos no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza, mas ao final produz fruto de justiça (Hb 12.11). A tristeza causada pelo peso da mão de Deus constitui-se uma bênção e é parte do processo de reconhecimento do pecado por parte do crente.

        

Cada um dos casos citados acima, devidamente observados dentro de seus contextos, revela crentes sofrendo profundamente por não interpretar as circunstâncias pela perspectiva das promessas da Palavra de Deus, por não descansar no governo de Deus ou por ocultar o pecado.

 

Se fossem medicados poderiam até, por um tempo, ter o seu sofrimento aliviado, mas não teriam o pecado do seu coração tratado, o que só pode ser feito pela Palavra de Deus que “é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração (Hb 4.12).   

 

A “depressão” de Jesus

 

O caso de Jesus foi deixado para ser tratado à parte, pois sua tristeza não foi ocasionada pelas mesmas razões dos outros personagens.

 

O autor do texto faz duas afirmações e a implicação óbvia é a de que Jesus precisava mesmo era de um tarja preta. São elas: a) Jesus passou por uma depressão profunda e b) ele desejou morrer.

 

Essas afirmações resistem a um exame do texto? Creio que não, como veremos.

 

Depois de três anos ensinando os discípulos, curando e anunciando o reino, se aproximava a hora em que o Senhor derramaria o seu sangue para redimir o pecador. Ele chama seus discípulos e sobe o Getsêmani a fim de orar e chamando à parte Pedro, Tiago e João afirma estar profundamente triste, até a morte. Essa frase expressa a profunda tristeza de Jesus, mas será que revela que ele desejou morrer? Olhando para o versículo seguinte fica bem claro que não. Nele Jesus ora rogando ao Pai que, se possível, passasse dele o cálice, ou seja, ele pede exatamente o contrário, pede para não ir para cruz.

 

O que angustiava Jesus era justamente a morte, pois ela significaria receber a ira de Deus pelos pecados do seu povo, que ele estaria assumindo no Calvário. Por causa dos nossos pecados o Senhor morreria e sentiria o desamparo do Pai, a ponto de clamar: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

 

A afirmação de que Jesus estava triste e pedindo a morte por estar com depressão é então uma falácia. Nem todo o Prozac do mundo aliviaria sua tristeza por ter a comunhão perfeita com o Pai quebrada por causa dos nossos pecados.

 

Quando o autor afirma, portanto, que Jesus pode compadecer-se de nós por ter sido tentado da mesma forma, ele faz uma afirmação correta, mas parte de uma premissa equivocada. Jesus não pode compadecer-se de doentes por ter experimentado a doença da depressão, mas compadecer-se de homens que são tentados a não confiar no plano de Deus, por ter ele mesmo sido tentado a abandonar o Calvário, mas, em vez disso, ter se submetido à vontade do Pai ao declarar: “Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39). É por isso que o escritor de Hebreus afirma que “foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado (4.15).

 

Para terminar...

 

É um grande equívoco assumir como pressupostos teorias científicas e interpretar os episódios de profunda tristeza de personagens bíblicos com lentes seculares. Essa será uma tarefa sempre impossível, pois para a medicina a depressão é caracterizada por um conjunto de sintomas e não pela presença de um ou dois apenas.

 

Não é objetivo deste texto minimizar o sofrimento humano, de forma alguma. Ele é real e deve ser sempre tratado. A questão aqui gira em torno do “como” tratar. No artigo “Uma crítica do DSM-IV à luz da Bíblia”[2], John Babler afirma acertadamente:

 

As Escrituras são o caminho apropriado para o entendimento dos assim chamados transtornos mentais: eles consistem em comportamentos derivados do pecado. Uma mudança verdadeira pode acontecer a partir do momento em que o pecado é admitido e há arrependimento. Quando o problema consiste em um coração perdido, a Palavra de Deus é o remédio mais seguro porque o Espírito Santo nos conduz a Cristo.[3]

        

Alguns podem afirmar que o que foi tratado aqui serve para a chamada depressão exógena, mas não se aplicaria à endógena por esta ter causas biológicas e hereditárias. É importante, então, fornecer algumas informações.

 

A revista Superinteressante de dezembro de 2010 noticiou que uma pesquisa recente aponta para o fato de que os antidepressivos causam depressão. Isso porque, contrário ao que se pensava, a depressão não é causada pela falta de serotonina no cérebro, mas pelo excesso desse neurotransmissor. Como o antidepressivo aumenta os níveis de serotonina, acaba tendo o efeito contrário ao desejado.[4]

 

Essa perspectiva não é nova. Thomaz Szasz, psiquiatra e acadêmico, é um ferrenho opositor da ideia da depressão como doença. Quando questionado em uma entrevista sobre a eficácia dos medicamentos ele respondeu:

 

Não vejo dificuldade em explicar isso. O comportamento humano, seja normal ou anormal, não acontece no vácuo, obviamente ele é mediado pelo modo como o corpo e cérebro da pessoa funciona, e o fato de substâncias químicas afetarem o cérebro em instituições mentais não é mais misterioso do que cerveja, álcool ou outros tipos de bebida afetarem pessoas normais. Elas vão pra casa após um dia de trabalho, se sentem cansadas e deprimidas e tomam alguma bebida e se sentem melhor. Isto não quer dizer que elas estavam doentes antes. Podemos tomar vários tipos de substâncias químicas que afetam nosso comportamento. Isso de maneira alguma prova que o estado anterior era um estado de doença médica.[5]

 

Outro psiquiatra afirma que, desde que os antidepressivos foram lançados no Reino Unido, pelo menos uma pessoa por semana cometeu suicídio enquanto os tomava, e não teriam cometido se não os tivessem tomado.[6]

 

Como se pode perceber, não há toda essa unanimidade em relação às causas biológicas da depressão, tampouco sobre os efeitos dos antidepressivos. A desconfiança não parte apenas de “religiosos em nome de uma grande fé”, mas também de médicos e pesquisadores.

 

Enquanto a ciência não chega a uma conclusão, temos a infalível Palavra de Deus. Somente a Lei do Senhor é perfeita e restaura alma (Sl 19.7) e, como afirma o apóstolo Pedro, pelo conhecimento de Cristo temos todas as coisas que são suficientes para a vida e piedade. Crer nisso não é preconceito ou falta de informação, mas convicção de que Cristo Jesus é plenamente suficiente na vida dos crentes.

 

Milton Jr.



[2] DSM é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, livro de referência decisivo para os diagnósticos psiquiátricos, e que está em sua quarta edição

[3] John Babler. Uma crítica ao DSM-IV à luz da Bíblia. in: Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, v. 2, CCEF e SBPV

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Saindo do fundo do poço!

Introdução

 

Há experiências na vida que podem nos marcar, tornando-se um paradigma com o qual avaliar outras situações que provoquem igual sensação. Trauma, diriam alguns... Dor recorrente, outros... O nome ajuda, mas não resolve. Precisaríamos de um alguém que tivesse estado lá, no fundo do poço, que tivesse experimentado a agonia, e a tivesse superado; de alguém que tivesse sofrido um grande trauma, mas que não tivesse ficado traumatizado... Precisamos de alguém como José para nos ensinar.

 

José era um adolescente hebreu, filho de Jacó. Das duas esposas do patriarca, José era o primogênito da amada Raquel. Privilegiado dentre os irmãos por seu pai, tinha deles apenas um ódio crescente.

 

A trama começa com um sonho, contato como se fora coisa normal, que se sonha numa noite comum. Aos ouvidos o relato soa como desatino: “Reinarás, com efeito, entre nós; e nos curvaremos ante ti?” Até do Pai ouve reprovação, que prudente aguarda o querer do Soberano.

Mandado pelo pai para vigiar e alimentar os irmãos, não os encontra no lugar programado; mas um estranho aparece e lhe indica o caminho, para que não se deixasse perder do seu destino. Lá, ao longe, os irmãos que os avistam tramam sua morte! Convencidos pelo mais velho a não derramarem sangue inocente, o jovem José é colocado num cisterna vazia. José foi parar no fundo do poço. Ainda desorientado, mudo permanece, à espera de direção.

José é aviltantemente vendido como um escravo pelos próprios irmãos a mercadores que viajavam rumo ao Egito, onde seria vendido novamente a Potifar, chefe da guarda egípcia. Lá, sob a benção de Deus, tudo o que lhe era entregue às mãos, prosperava grandemente. Potifar, percebendo o fato, enriquece depois de entregar seus bens e a administração deles a José.

Sua beleza física chama a atenção da Esposa do Oficial, que se insinua constantemente, até num atentado ao pudor, José de desvencilha da tentadora, mas sua capa fica para incriminá-lo injustamente de um crime que a todo custo evitou. A continuidade da injustiça vem quando sem verificação, julgamento ou coisa que o valha, Potifar acredita cegamente em sua esposa, encarcerando José de imediato.

 

Quando tudo parecia melhorar, quando finalmente parecia que as coisas poderiam ser melhores para o desventurado José, a injustiça mais uma vez lhe visita, e ele vai parar na prisão. Lá está José, novamente, no fundo do poço...

 

 

Um tema recorrente

 

O que há de recorrente na vida de José, além das constantes injustiças sofridas, é a presença de Deus, cujas mãos poderosas dirigem seu destino. A providência divina parece ser a atmosfera em que a história do jovem José se desenrola.

 

O que é necessário ressaltar, para que se não esqueça, é que queremos ver com cores mais vivas a presença da providência. Entretanto, a beleza do tema e da sua realidade em nossa vida, é que a providência é um tema poderoso, mas sutil. No desenrolar da nossa história no tempo, nem sempre é claro o alvo providencial de Deus para nós. De fato, a experiência dos santos é que quase nunca vemos para onde nossa vida caminha, de modo que somos encomendados à confiança em Deus, como quem canta que não sabe o que de mal ou bem é destinado a si, mas sabem em quem tem crido... Lutero: não sei por quais caminhos Deus me conduz, mas conheço muito bem o meu guia.

 

Embora o desejo seja sempre ver mais vividamente, temos que ter por certo que a providência está sempre presente. Ao olharmos para os singulares acontecimentos na vida de José, por sabermos o fim que os fatos ensejaram, não há desespero, dúvidas ou angústia. Mas se, por outro lado, levarmos em conta o contexto de José, nos colocando no lugar dele, tendo em vista o pouco conhecimento de que dispunha, inclusive a ignorância do fim daquela jornada, tal como nós estamos em relação à nossa própria história de vida, então será a verdade da presença providente de Deus que teremos como única garantia e certeza de que em boas mãos estão nosso destino. Ainda assim, não haverá lugar para desespero, dúvidas ou angústia. O alvo final pode até não estar claro, mas o que tem que ser bem claro para nós é quem é o Deus de toda providência que nos acompanha...

 

 

Gênesis 37, 40 e 50

 

O que queremos saber é como sair do fundo do poço! Queremos lidar com a ira que é suscitada quando uma injustiça é perpetrada contra nós. Queremos lidar com a tristeza e o desânimo que toma conta quando tudo vira de cabeça-para-baixo na hora em que esperamos que melhorem.... Queremos lidar biblicamente com o que comumente as pessoas chamam de trauma.

Estes capítulos de Gênesis oferece um santo remédio. Estes capítulos do livro de Gênesis registram episódios na vida de José que, embora apresentem histórias de decepção, fornecem junto grande ajuda, pois, se entendermos como entramos no poço, decidiremos se os mais tristes acontecimentos vividos terão ou não o poder de marcar e traumatizar nossa vida, ou serão o ambiente em que a graça de Deus florescerá no guiando a um entendimento mais profundo da providência, e um conhecimento mais íntimo de Deus.

 

No capítulo 37, José é vendido pelos irmãos. Ao que tudo indica, a decepção começa com a descida ao poço. Aqueles eram seus irmãos mais velhos, que deveriam dar-lhe proteção agora engendravam tamanha injustiça contra o irmão mais novo. Em Gênesis 40, após ter passado pela injusta acusação de assédio sexual , na prisão, interpretando o sonho do copeiro, José fala do que o coração está cheio, explicando que nada tinha feito para que tivesse sido posto naquela “masmorra”. A Palavra hebraica usada ali também é encontrada em Gênesis 37. 24, porém traduzida por “cisterna”. Agora pense: O que faria José usar a palavra “poço” ou “cisterna” aqui? Por que mesmo estando no Egito, para José era como se ainda não tivesse saído daquele poço hebreu? Curioso, não? Embora José estivesse à milhas da cisterna em que seus irmãos o puseram, ele ainda permanecia lá dentro. José havia estado confuso dentro daquela sombria cisterna, e mesmo fisicamente fora dele, sua alma ainda habitava lá. O poço passou a ser um paradigma de injustiça, confusão e desorientação, com o qual avaliar os acontecimentos posteriores.

 

Quando os funcionários de Faraó foram aprisionados e algum tempo depois sonharam, acendeu em José um sonho de liberdade. Após interpretar o sonho do copeiro, vendo que seu fim era aprazível, pediu que se lembrasse dele quando as coisas se lhe melhorassem, visto as injustiças que havia sofrido; porque de fato, havia sito roubado da terra dos hebreus; e, lá nada fez, para que o pusessem naquele poço profundo...

 

José, humano e falho, num momento de fraqueza, esquece-se daquele que realmente dele deveria se lembrar. Nem sempre nossa compreensão e confiança são inabaláveis. A compreensão final de José, entretanto, difere bastante desta vista aqui! Em Gênesis 50 muita coisa havia mudado. O jovem nobre, vendido como escravo e aprisionado injustamente, agora é o homem mais poderoso do antigo Egito. Em suas mãos está o poder de fazer justiça e corrigir os atos do passo, com vingança e revanche. Seu pai havia morrido, seus irmãos eram hóspedes naquela terra que havia se tornado a sua. Os antigos algozes agora são humildes vassalos em busca de alívio. Eles ainda não haviam provado do arrependimento, e com mentiras tentam convencer o poderoso José de não os punir pelos odiosos atos passados.

 

Para nossa edificação, alegria deles e paz de José, Um mais poderoso que o poderoso José do Egito, tirou José do fundo do poço antes destes acontecimentos finais. Deus em graça não somente tirou José de uma condição de humilhação para outra de exaltação, mas tirou sua alma da cisterna, fazendo-o entender que quem dele haveria de se lembrar era o próprio Deus. Quando Deus dele se lembrou, fez o copeiro lembrar-se, e José pôde usar seus dons de modo tão abençoador que não só livrou o Egito da fome, como a muitos povos que puderam ao Egito recorrer, incluindo sua família, que agora esta diante de um José bem diferente.

O que vemos faltar na conversa como copeiro esteve presente na conversa tensa com a mulher de Potifar: Deus. Mas quando em Gênesis 50 José diz aos irmãos que na verdade seus irmãos tramaram o mal contra José, Deus estava durante todo o tempo tramando o bem, através dos males pelos quais ele passou, começados no fundo daquela cisterna...

 

 

Entendendo na prática

 

Muitos diriam que a compreensão cognitiva não tem tanto poder prático quando gostaríamos. José, entretanto, é um exemplo que um correto entendimento nunca fica estancado no campo cognitivo. Um entendimento real e experiencial de um Deus providente, que intervém ativa e graciosamente, levou José a não somente a sair do poço em que sua alma houvera ficado, mas também a tirar outros de lá. Diz a Escritura que José falou ao coração dos irmãos mentirosos, como profeta da verdade que era apresentando-lhe um Deus soberano que em graça operou através dos atos maus daqueles homens maus; e não obstante, seu plano era bom, perfeito e agradável.

 

Quando nós experimentamos esse conhecimento, como quem conhece no fundo do coração, de ondem procedem as fontes da vida, a vida que de lá procede já sai alterada pelo conhecimento transformador e libertador da providencia redentora de Deus.

 

Jesus, muitos anos depois, disse que o conhecimento da verdade liberta (João 8.32), mas não um conhecimento intelectual, mas um que opera no centro motor da vida, no coração. Foi um conhecimento deste tipo que José teve. Não somente um conhecimento “do tipo”, mas um conhecimento específico: Deus é providente, opera em amor para o bem daqueles a quem ama. Isto significa redenção nossa e glória dele!

 

Lembrou-se Deus de José e José saiu do fundo do poço. Lembrou-se José de Deus, e seus irmãos começaram a jornada de saída de seus poços...

 

Você também pode ajudar outros a sair do fundo do poço, mas para isso você também tem que entender o que José entendeu: Quem deve se lembrar de nós é Deus! É Ele quem opera providencialmente nos acontecimentos de nossa vida, de modo que sua vontade prevaleça, vontade esta que é boa, perfeita e agradável.

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